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O Primeiro Dia

Luiz Zanin Oricchio

03 de dezembro de 2008 | 19h36

O Primeiro Dia (Canal Brasil, 22h) é um filme que ficou um pouco esquecido na carreira de Walter Salles e Daniela Thomas. Ótima ocasião para revê-lo, porque é muito bom. O fundo da história é a preocupação humanista dos dois cineastas, cariocas, que vêem no Rio o protótipo de uma “cidade partida”, para usar a expressão e título de um livro famoso de Zuenir Ventura sobre o assunto. A idéia é que, se não se colocar a imaginação para funcionar e tentar superar essa cisão radical entre classes sociais tão diferentes, não haverá qualquer solução para a cidade. Por extensão, para o Brasil.

São idéias de fundo. Que se expressam num filme inspirado e em personagens comoventes. Luiz Carlos Vasconcelos faz João, um bandido que, por uma dessas circunstâncias, vê-se tentado a trair um amigo de infância, Francisco (Matheus Nachtergaele). Do outro lado, há uma moça de classe média, Maria (Fernanda Torres), que, abandonada pelo companheiro, decide mergulhar para a morte enquanto todo mundo comemora, pois é réveillon. O encontro entre João e Maria é mais do que improvável possível. No entanto, é também o mais necessário. Esse encontro pode ser luminoso, intenso e fugaz como os fogos da passagem de ano. Mas é muito poético. E poética é o que falta ao mundo.

(Caderno 2, 3/12/08)

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