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O preço do ídolo

Luiz Zanin Oricchio

20 de setembro de 2011 | 17h08

Eu sei que tudo tem seu preço. Mas eu gostaria de saber, exatamente, quanto vale ver os mascotes do adversário rodearem o ídolo do time rival, encantados. Foi o que aconteceu com a garotada corintiana, que foi em peso curtir com Neymar antes do jogo de domingo no Pacaembu. Não me lembro de ter visto nada semelhante em toda vida.

Fiquei pensando no crescimento do carisma desse rapaz, ao longo desse pouco tempo que tem como profissional. Logo que começou a despontar aconteceu algo interessante. Neymar e seu então companheiro de ataque, André, estavam à toa num shopping center de Santos. Ninguém os conhecia muito bem e não foram notados. Pelo menos até começarem a fazer aquelas dancinhas que ficaram célebres nas comemorações de gols do Santos de 2010. Nesse momento, foram reconhecidos, aplaudidos e as crianças pediram autógrafos. Mas, até então, podiam gozar do tranquilo anonimato. Tranquilo e, àquela altura, indesejado. Começavam a saborear a fama e gostavam dela a ponto de chamarem a atenção das pessoas quando não eram reconhecidos. Hoje é impossível pensar que Neymar passe despercebido em qualquer lugar do país ou do exterior.

É um rosto manjadíssimo – e que passa uma série de valores interessantes: alegria, irreverência, juventude, riqueza, sucesso, essas coisas todas, valores seguros em nosso mundo das celebridades. Daí a facilidade com que fecha contratos de publicidade, pois é interessante para as marcas se associarem a esses signos positivos. Quanto mais Neymar anuncia, mais se torna conhecido e cobiçado, num círculo virtuoso em que riqueza gera riqueza. Pelo menos até que a superexposição comprometa ao valor do ídolo. No caso de Neymar, isso parece longe de acontecer. Se é que acontecerá algum dia, pois os especialistas em mídia estudam esse fenômeno e o controlam, de modo a não exaurir a galinha dos ovos de ouro.

Estamos apenas falando do valor de face do ídolo, de sua capacidade de gerar recursos, para si e para o clube que representa, e também de arregimentar fãs, mesmo nas hostes adversárias. Este último ponto é fundamental para um clube que deseja aumentar seu maior patrimônio, a torcida. Também aqui o valor do ídolo é inestimável.

Tudo isso para falar apenas das qualidades fora do campo, e que, claro, se relacionam diretamente com aquilo que ele faz no interior das quatro linhas. Sim, porque de nada adiantaria Neymar ser simpático, irreverente, jovem e adepto de penteados exóticos se, dentro de campo, fosse um perna de pau. Ou se fosse simplesmente mediano. Não. É sua qualidade excepcional de boleiro que se transmite para algo chamado imagem, imaterial mas capaz de produzir efeitos fulminantes na psicologia de crianças e jovens em formação, e também na conta bancária da trupe de interessados que o rodeia.

No mercado das ilusões, o ídolo gera fortunas a partir de elementos imponderáveis como um talento excepcional no trato da bola e uma imaginação bem dotada na construção da imagem própria. É com tudo isso que contam os interessados na trajetória do rapaz; ele próprio, em primeiro lugar, embora pareça saudavelmente desligado de toda especulação em torno do seu nome. Me pergunto se esse desligamento, se essa manutenção da fome de jogo mesmo com tanta cifra girando e acenando para ele, não faz parte do seu charme. Afinal, quem pode dizer que Neymar deixou de encarar os beques por causa de sua eventual venda para a Europa? Ninguém. Ele continua a jogar com a coragem e a alegria de sempre. Como se amasse a bola, adorasse o seu time e continuasse a fazer do jogo adulto o prolongamento da sua distração de moleque. Superprofissional, Neymar ainda nos faz sonhar com um amadorismo ilusório.

Nada disso, dessa soma extraordinária de qualidades, parece ter preço. E, no entanto, ao que parece, o montante já foi fixado e sacramentado entre as partes. Porque tudo tem seu preço, mesmo o que é tão mágico e encantador que parece não tê-lo.

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