As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

O prazer de tirar o pão da boca do rival

Luiz Zanin Oricchio

29 de novembro de 2011 | 09h55

Amigos, também no futebol existe o pensamento politicamente correto, que, como vocês sabem, é composto de pequenas (e às vezes grandes) hipocrisias. Agora ele se manifesta quando alguns palmeirenses dizem pouco se importar em impedir o título do Corinthians. “Queremos apenas jogar bem e ganhar”, diz Felipão.

No outro lado da história, a mesma coisa. Luxemburgo também declarou que deixava para a torcida a possível satisfação de tirar o título do Vasco. Queria apenas jogar bem, etc. No caso do Flamengo, com a motivação adicional: está em jogo uma vaga na Libertadores. No Palmeiras, nem isso: a única recompensa é mesmo botar água no chope do principal adversário.

Todo mundo sabe disso. Mas não se diz. Não fica bem a profissionais dar mostras de tamanha passionalidade. Deixa-se essa manifestação emotiva para a torcida que, esta sim, é amadora e, como amadora, pode se deixar levar por arroubos da paixão, tanto positiva quanto negativa.

Os técnicos deram essas declarações diplomáticas e dificilmente os jogadores falarão de modo diferente. Dirão que manda a ética do esporte que se jogue a sério e assim por diante. Eu ficaria surpreso se algum deles confessasse o prazer que seria tirar o pão da boca de um rival próximo. Mesmo porque gente capaz de fazer isso, como Vampeta, Romário ou Edmundo já não está mais em atividade. Hoje predominam os bons moços, com suas frases sensatas e sem sal ditadas pelos profissionais do media training. Não declaram nada que possa comprometê-los no futuro que, como costumam dizer, a Deus pertence.

Diplomacias e pequenas hipocrisias à parte, o que não se pode deixar de reconhecer é o acerto de colocar os clássicos regionais na última rodada do campeonato. Se não, é possível que tivéssemos em 2011 um repeteco de outras edições, com times desmotivados e – pior – interessados em entregar o jogo para prejudicar o rival direto.

A sábia decisão de deixar os dérbis para o fim aquece o desfecho do campeonato à temperatura máxima. Isso por obra e graça da matéria-prima da qual são feitas todas as disputas: a rivalidade. Sem ela, todo futebol vira um casados x solteiros. Aliás, a comparação é injusta. Já vi muita gente sair estropiada depois desses rachas de fim de semana, regados a cerveja e churrasco. O bicho homem não gosta de perder. Quando o assunto é futebol, menos ainda. E só há uma coisa pior do que perder: é ver o seu rival ganhar. Curioso como uma atividade tão bela como o futebol se nutra (também) de instintos tão baixos.

Mas assim é a vida. Complexa e contraditória é a natureza humana. Porque se existe baixeza em desejar o pior para o seu rival, também há grandeza em reconhecê-lo em seus feitos legítimos. Assim como o torcedor já viu (e pode ter praticado) cenas de sadismo com o sofrimento alheio, também já testemunhou a generosidade. Por exemplo, quando nos compadecemos de um time rebaixado para a segunda divisão e nos sentimos solidários com a torcida machucada. Ou, quando aplaudimos uma bela jogada do adversário, reconhecendo-lhe a arte, mesmo quando é contra o nosso time. Vi Pelé ser aplaudido várias vezes por rivais derrotados. Vi a torcida santista homenagear Marcelino Carioca quando ele marcou um gol maravilhoso na Vila Belmiro, contra o Santos. Somos assim. Cheios de contradições e nuances. Por isso o futebol nos representa tão bem.

E, por isso mesmo, que me desculpem os corintianos, teria sido uma pena para um campeonato tão bom se tivesse terminado já no domingo. Seríamos privados da emoção maior da última rodada. Se o título vier para o Corinthians, que seja da maneira como eles parecem gostar, com o máximo de sofrimento. E se for para o Vasco, quer merecimento maior?

(Esportes)

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: