O Porto
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O Porto

Luiz Zanin Oricchio

02 de março de 2012 | 13h43

 

O Porto (Le Havre), de Aki Kaurismaki, podia também ser chamado de A Dignidade dos Humildes. Esse filme, belo e sensível, se desenvolve como uma fábula moral.

Há o intelectual transformado em engraxate, Marcel Marx (André Wilmis), que vive na cidade portuária do Havre com sua esposa estrangeira, Arletty (Kati Outinen). Vemos todo o seu pequeno entorno, formado pelo café da esquina onde fuma e toma seus tragos, o cotidiano doméstico feito de uma precariedade civilizada, os problemas com a polícia intolerante, etc. A tudo, Marcel enfrenta com a altivez de um lorde empobrecido.

Só não sabe que a sua vida estaria prestes a mudar com a chegada de um grupo de clandestinos ao Havre. Os adultos são presos, um menino escapa e Marcel passa a protegê-lo. Em especial do comissário Monet (Jean-Pierre Darroussin), que se empenha em capturá-lo com a obstinação de um Javert, o policial cruel de Os Miseráveis, de Victor Hugo.

A menção não é gratuita. Há algo de agradavelmente retrô em O Porto, como se vivesse fora do tempo, ou melhor, em outro tempo. Há o clima da cidade portuária, com seus bistrôs de pescadores e trabalhadores do mar. Neles fuma-se e bebe-se à vontade, como um dia já se fez. Um desses bares tem o poético nome de Au Retour de La Mer. A própria cor do filme parece de outra época, com suas tonalidades medidas e expressivas, de película de 35 mm, sutilezas tonais de pintura abandonadas no vale tudo digital de quase toda a produção contemporânea. São poucos os objetos em cena que identificam o contemporâneo. Por exemplo, vê-se um solitário celular na mão de um delator da polícia (papel vivido pelo ícone da nouvelle vague, Jean-Pierre Léaud). Há também, no meio do filme, um magnífico show de rock feito para angariar fundos, e protagonizado por Little Bob (Roberto Piazza), um roqueiro dos velhos tempos.

Enfim, tudo parece encantadoramente antigo, com exceção do fato principal, este de gritante modernidade – a questão dos imigrantes, premente nos países mais atraentes, até que a Europa entrasse em crise econômica e passasse e se preocupar com problemas criados por ela mesma, deixando um pouco de lado bodes expiatórios vindos da África em embarcações precárias.

É dessa fricção entre um modo de vida, digamos, vintage, e a áspera urgência da modernidade, que O Porto tira seu maior interesse. A maneira digna com que o povo pobre se protege e resolve seus problemas parece indicar a existência subterrânea de uma reserva de valor moral inestimável. Valor, claro, não contabilizado por Nicolas Sarkozy ou Angela Merkel.

(Caderno 2)

 

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