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O ponto cego da civilização: Saramago no cinema

Luiz Zanin Oricchio

19 de junho de 2010 | 16h52

Coube ao diretor brasileiro Fernando Meirelles fazer a melhor adaptação de uma obra de José Saramago para o cinema, Ensaio Sobre a Cegueira (2008), filme que participou do Festival de Cannes. Meirelles temia a reação do escritor, mas sossegou quando assistiu ao filme em sua companhia, em Lisboa. Saramago acompanhou a sessão sem dizer uma palavra e, no final, emocionado, agradeceu ao cineasta. Disse que se sentia tão contente quanto estava ao acabar de escrever o romance, talvez sua obra mais popular.

Na história do livro, filmada em São Paulo (na tela é uma cidade indefinida), uma estranha doença tira a visão das pessoas, com exceção da personagem de Julianne Moore. Na parábola de Saramago, e que Meirelles tenta mimetizar em termos de imagens, a tênue crosta de civilização não resiste à perda de um dos sentidos básicos do ser humano. No subtexto, nem tão sutil assim, o ser humano, alienado pela violência do capitalismo (não esqueçamos que Saramago era comunista), não consegue mais enxergar a sua condição de ser social. Por paradoxo, seria uma cegueira real que poderia levá-lo a enxergar de novo algo sobre si.

Não foi a única adaptação. Antes, em 2002, o francês naturalizado holandês George Sluizer já havia levado para a tela o romance Jangada de Pedra. O desafio era transformar em imagens outra das metáforas ferozes de Saramago ? a história fala de um estranho fenômeno sísmico que separa a Península Ibérica do resto da Europa. Portugal e Espanha, enfim sós, livres do peso europeu, saem navegando no Atlântico. O filme aposta no realismo mágico implícito no texto, mas não alcança seu propósito. Consta que o primeiro encontro entre Sluizer e Saramago não foi muito amistoso. O cineasta mostrou o roteiro ao escritor, que teria comentado: “Você não entendeu bem o que escrevi.” O script foi refeito, mas o resultado na tela reflete as dificuldades de produção. Não convence.

Existem outras adaptações, como Embargo, de Antonio Ferreira, baseado em Objeto Quase, e A Maior Flor do Mundo, de Juan Pablo Etcheberry, animação baseada em conto infantil do português. Mas Ensaio Sobre a Cegueira é, de longe, a mais interessante. Deve-se registrar que um texto de Saramago, o prefácio para o livro de fotos de Sebastião Salgado, Terra, inspirou o curta de Mauro Giuntini Por Longos Dias, uma visão histórico-poética das lutas do MST. Os militantes são vistos em sua vida cotidiana nos acampamentos até sua chegada a Brasília na Marcha pela Reforma Agrária, de 1997.

Saramago será personagem do documentário José e Pilar, produzido pela O2, empresa de Fernando Meirelles, e dirigido pelo português Miguel Gonçalves Mendes. Sua matéria é o cotidiano do escritor e sua mulher na ilha de Lanzarote. O filme tem pré-estreia programada para a Mostra de São Paulo, em novembro. Em Lisboa seria apresentado no dia 16 de novembro, aniversário de Saramago.

(Sabático Especial, 19/6/10)

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