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O poder e a corrupção

Luiz Zanin Oricchio

20 de julho de 2007 | 13h47

Assisti agora de manhã a uma sessão de imprensa de A Comédia do Poder, filme de Claude Chabrol que entra em cartaz na semana que vem. Muito bom, como quase tudo do velho mestre francês, um sobrevivente da nouvelle vague, do tempo do cinema inteligente para adultos.

Numa época em que se discute muito a corrupção, esse filme de Chabrol parece ter um atrativo particular, para não dizer uma utilidade insuspeita.

Através da interpretação magnífica de Isabelle Huppert como a juíza Jeanne, Chabrol propõe uma descida vertical aos porões da sociedade francesa (e qualquer outra, no fundo), aquele nicho onde empresários e políticos conversam e fazem seus bons negócios.

O interessante é o tom nada moralista que domina tal investigação, sob a forma de parábola moderna. Jeanne parece uma dessas incorruptíveis de filme americano, disposta a encontrar a verdade pelo simples prazer de sanear o sistema e vê-lo funcionar de maneira perfeita. Mas este, convém insistir mais uma vez, seria um filme de Hollywood, a começar pela crença acrítica na “perfeição do sistema”.

Dessa forma, Chabrol prefere contar sua história da maneira límpida e demonstrativa que o caracteriza e, ao mesmo tempo, deixar que a personagem central vá insinuando a parte que lhe cabe naquele latifúndio. Pois a campeã da justiça Jeanne também toma parte no jogo, embora não de maneira óbvia.

Quais são as suas motivações?, será a pergunta do espectador arguto. Mas a trajetória pessoal de Jeanne talvez seja o que menos interessa em A Comédia do Poder. Balzac dizia ter aprendido muita coisa quando trabalhou em cartórios – por eles passa o esgoto da sociedade, dizia. Aqui também, nessa junção entre o mundo das finanças e o da política, desvenda-se a estrutura mesma da sociedade contemporânea. E, como dizia Balzac, ela não parece cheirar muito bem. A corrupção faria parte da estrutura do jogo do poder; não lhe é externo nem acessório, independe de governos e indivíduos.

Jeanne (que não tem esse nome por acaso, lembrando Jeanne D’Arc, a heroína francesa) parece um Quixote moderno e de saias. Mas um Quixote dotado de auto-ironia. E por isso, quando percebe que sua vida está indo pelo ralo e lhe perguntam o que iria fazer a respeito de tudo que havia descoberto, ela dá como resposta: “Qu’ils se démerdend”, traduzível, livremente, em “Eles que se virem”. Mas a expressão original francesa dispõe de força própria.

Desistência? Ou consciência madura da força das coisas diante da impotência do indivíduo? O que se pode dizer é que Chabrol não é tolo, pelo contrário: é um lobo velho. Não colocaria sua assinatura numa personagem ingênua. Diante de situações complexas, a lucidez é o melhor remédio. O único, aliás.

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