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O pianista que perdeu sua alma

Luiz Zanin Oricchio

13 de janeiro de 2008 | 18h28

Existe parentesco – temático – entre Allegro, de Christoffer Boe, e um clássico de Ingmar Bergman, Morangos Silvestres. Para quem se lembra deste último, fica a imagem do velho professor Isak Borg (Viktor Sjõstrõm) que, atravessando o país para receber um prêmio, vê-se confrontado com a sua vida. E nota que perdeu a alma ao concentrar-se egoisticamente apenas em seus objetivos e carreira. É magnífico.

Allegro é também uma história desse tipo. No caso, há um pianista clássico, Zetterstrom (Ulrich Thomsen), menino prodígio, que se dedica com afinco, e mesmo com fanatismo à sua carreira de músico. A ponto de, adulto, deixar para trás uma mulher belíssima, interpretada pela ex-miss Dinamarca Helena Christensen, que, nos informa o material de imprensa, foi considerada ‘o mais belo corpo do mundo’ pelo estilista Versace. Bem, a informação vale o que vale, mas, em todo caso, não resta dúvida de que se trata de uma mulher e tanto. Zetterstrom a abandona para fazer carreira num centro maior, Nova York, umbigo do mundo contemporâneo. Sua volta à Dinamarca será um reencontro com seu passado, com as opções feitas na vida, bem à maneira do que acontece com o o sisudo dr. Borg na história de Bergman.

As aproximações temáticas podem ser feitas, mas o fato é que os dois filmes diferem muito na maneira de desenvolver suas histórias e idéias. Boe, por exemplo, usa do recurso criativo do desenho animado para ilustrar alguns fatos da infância do pianista. Há também a idéia, um tanto fantástica, de um certo bairro de Copenhague que, misteriosamente, fica isolado do resto da capital. Nessa bolha acontecem coisas estranhas, para quem consegue nela entrar. Por exemplo, o ‘talento’ do pianista nela fica seqüestrado dentro de uma garrafa. Sem a sua essência, ele só conseguirá tirar sons desafinados do seu instrumento. Há pessoas do seu passado que também habitam a ‘Zona’ e lá parecem estar à sua espera.

Dito assim, parece mais esquisito do que de fato é. Banhada numa luz fantasmagórica, essa hiper-realidade passa a ser convincente ao espectador. Desde que este embarque na idéia fundamental, que é a do confronto do personagem consigo mesmo, com seus fantasmas, com tudo aquilo que ganhou e o que perdeu ao longo da vida. Por sorte, esse balanço de existência não é feito daquela maneira cabotina dos filmes abertamente comerciais – ela aparece como de fato é, transfigurada mais pela imaginação do sujeito do que sob a forma de um balanço contábil, com valores fáceis de estabelecer.

Allegro comporta essa complexidade de escolhas, sem ser didático em momento algum. Contempla, em especial, essa curiosa e não incomum contradição de um artista. Zetterstrom é um perfeccionista do teclado, que pede postura equivalente da sua platéia. A ponto de tocar no escuro e exigir que os espectadores vendem seus olhos para não o verem sobre o palco. Acha que sua imagem pode distraí-los daquilo que verdadeiramente importa – a música. Se você pensou em Glenn Gould como modelo, acertou. O pianista canadense, um eremita maníaco por limpeza, deixou de tocar em público e dedicou-se apenas às gravações para obter um som depurado ao máximo. A desumanidade aliada à música clássica aparece também no bonito Um Coração no Inverno, de Claude Sautet. Como a frieza pode combinar com a sensibilidade extrema? Bem, é possível, sobretudo nesse mundo dominado por egos imensos e fantasias de perfeição e superioridade. É o que mostra também o imenso romance Doutor Fausto, de Thomas Mann, em que o compositor Adrian Leverkuhn vende a alma em troco de um novo caminho para sua arte. Zetterstrom é um parente de toda essa família. O que não quer dizer que tenha a mesma grandeza.

(Caderno 2, 12/1/08)

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