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O pesadelo de Joseph Blatter

Luiz Zanin Oricchio

03 de junho de 2008 | 09h26

Para me afastar de um fim de semana horrível no futebol, vou tratar de tema mais geral. Não sei se vocês estão acompanhando, mas vejo com interesse a proposta da Fifa chamada de 6+5. O que isso quer dizer? Simplesmente que os times devem escalar no mínimo seis jogadores do seu país para cada jogo.

Com a medida, Blatter pretende brecar a descaracterização radical dos europeus – o Arsenal, por exemplo, se apresenta muitas vezes sem qualquer jogador britânico em campo. Não é caso isolado.

A medida visa dois efeitos: na própria Europa, limitar o poder econômico, aumentando a competitividade entre os clubes. Nos países periféricos, diminuir o esvaziamento dos seus campeonatos, causado pela sangria de talentos.

Blatter se preocupa também com as naturalizações forçadas, jogadores que adotam nova cidadania para defender seleções de outros países. Por exemplo, vários brasileiros participam da Eurocopa, que começa esta semana: Deco e Pepe, por Portugal, Marcos Senna, pela Espanha, Kevin Kuranyi, pela Alemanha. Blatter diz que, se medidas não forem tomadas, teremos, no futuro, uma Copa do Mundo disputada apenas… por brasileiros, de várias nacionalidades. Esse é o seu pesadelo. Que é também o nosso.

Vou enfileirando essas maltraçadas e já ouço, em surdina, a voz derrotista que me diz: “É a globalização, é inevitável…” E talvez seja mesmo. Apesar de terem sido aprovadas pelo conselho da Fifa, as decisões encontram muita resistência. Há um problema de legislação, pois a União Européia não aceita discriminação entre trabalhadores dos países membros, jogadores de futebol incluídos. Assim, europeus natos circulam livremente pelos 27 países da União. E os de fora? Para esses, existe a indústria das naturalizações. Muitos brasileiros já têm passaportes europeus, como Ronaldo, Roberto Carlos e Dida.

Desmontar esse esquema milionário talvez esteja além das forças da Fifa. Para os grandes clubes é interessante ter jogadores de expressão mundial em seus elencos. Afinal, aspiram a se tornar entidades planetárias. Isso já acontece, em parte, com clubes como Real Madrid, Barcelona, Milan e Manchester, que têm muitos seguidores fora dos seus países de origem. Mas o objetivo é conquistar o mundo inteiro, como fez, em outra área, o cinema de Hollywood, esse notável exemplo de globalização cultural de mão única iniciada nos anos 1920.

Assim, se deseja disciplinar o mercado mundial da bola, Blatter terá de se opor a interesses financeiros poderosos e enfrentar a legislação do bloco europeu. Parece demais, mesmo para uma entidade que se orgulha de ter mais membros do que a ONU. A nós, resta torcer para que esse Quixote derrube seus moinhos de vento, porque uma mordaça na voracidade européia seria um alívio por aqui.

Mas, infelizmente, a mentalidade exportadora já se estabeleceu aqui mesmo, em casa. Não apenas a Europa atrai jogadores brasileiros, mas praticamente todo e qualquer país que disponha de moeda forte. Da Ásia às ex-repúblicas soviéticas, passando pelas ilhas Fiji e Faroe, qualquer lugar, com a possível exceção dos EUA, tornou-se mercado cobiçado pelos boleiros patrícios. A mentalidade que põe o Eldorado sempre além do horizonte é mais difícil de mudar do que a legislação. Às vezes, leva várias gerações.

O pesadelo de Blatter tem tudo a ver com o terrível fim de semana no futebol do Brasil.

(Coluna Boleiros, 3/6/08)

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