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O Perfume

Luiz Zanin Oricchio

27 Janeiro 2007 | 11h14

O Perfume, do alemão Tom Tykwer, é adaptado do romance de Patrick Süskind, best-seller dos anos 80. A história é a de um homem, Jean-Baptiste Grenouille (Ben Whishaw), que não tem cheiro corporal e, talvez por isso mesmo, é dotado de olfato privilegiado. O que o torna apto a se tornar um perfumista de mão cheia. A história é ambientada na França do século 18 e evolui de um drama pessoal (e social) a uma saga de serial killer. Grenouille era órfão e foi criado em condições dignas de um relato de Dickens. Adulto, segue sua vocação: vai atrás do perfume ideal, assim como o metafísico busca a essência do mundo e o surfista percorre todas as praias em busca da onda perfeita.

Também como um artista, Grenouille não permite que nada se interponha entre ele e a missão de sua vida. Freud dizia que, contrariando a moral burguesa, o artista tem todo o direito de queimar na lareira a mobília da casa para manter a modelo aquecida. Uma maneira de dizer que a obra é mais importante que o indivíduo e infinitamente superior às convenções. Divisa seguida à risca por esse perfumista aprendiz.

O filme não deixa de ter seu encanto como relato de época. O problema de Tykwer é passar para o espectador algo de que o cinema em tese não é capaz – o odor. Mas para isso existem os recursos visuais, e o resto que fique por conta da imaginação do público. Por exemplo, o fedor da Paris daqueles tempos, em especial do mercado de peixes onde Grenouille nasce, é sugerido de maneira bastante incisiva. Esses mesmos recursos visuais parecem não ser manejados à altura quando o diretor precisa mostrar uma idílica bacanal no que seria a praça usada como palco de um suplício. Dizem os créditos que a seqüência de paixão coletiva foi dirigida pelo grupo catalão La Fura del Baus. Leva jeito.

O problema de O Perfume é uma simbologia um tanto pesada, em especial em seus movimentos finais. Isso atrapalha um pouco, mas não chega a ser uma condenação para um filme interessante, embora às vezes saturado do ponto de vista do figurino e da fotografia. Acontece com freqüência, em filmes de época, mas neste não chega a ser um pecado capital.

Outro ponto forte é Dustin Hoffman no papel do velho mestre perfumista, com quem Grenouille vai aprender a sua arte. Vão ficando cada vez melhores esses atores americanos, à medida que envelhecem. Dustin Hoffman e Al Pacino dão show quando aparecem. Em O Perfume, Hoffman faz um melífluo Giuseppe Baldini, mestre relegado ao ostracismo, pois não consegue mais produzir novidades para consumo dos ricaços. É salvo pelo gongo da ruína quando descobre um aprendiz de talento, selvagem ainda, mas capaz de inventar um aroma novo a cada cinco minutos.

Obviamente, O Perfume foi bolado para ser um sucesso de bilheteria, daí as inúmeras concessões, tais como o uso do idioma inglês, apesar de a história se passar na França e na Alemanha, elenco com pelo menos um ator de grande apelo (Hoffman), etc. No entanto, Tykwer, autor do talentoso Corra, Lola, Corra, consegue de certo modo driblar o peso adicional do projeto e torná-lo leve e manejável. Mas o mais interessante passa meio ao largo, que é a dinâmica da obsessão de Grenouille pelo tal do aroma perfeito, que viria do corpo feminino. Essa omissão e mais a simbologia pesada tiram um pouco do efeito deste bom filme.