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O pensamento vivo do capitão Nascimento

Luiz Zanin Oricchio

18 de outubro de 2010 | 11h21

É um senhor deslocamento na visão de mundo de José Padilha. Se em Tropa de Elite o capitão Nascimento deplorava a “turma dos direitos humanos”, em Tropa de Elite 2 o agora tenente-coronel Nascimento, lotado na Secretaria de Segurança Pública, acaba por se aliar a um desses estranhos espécimes – um defensor empedernido dos valores constitucionais para todos. Sinal dos tempos? Sabedoria na assimilação de críticas? Evolução de conceitos?

Zazen Producciones/EFE

Há de tudo um pouco nessa reversão de expectativas de um filme para outro. E a boa notícia é que a dose de complexidade adicionada à receita não foi capaz de afastar o público dos cinemas. Pelo contrário. Em seu primeiro fim de semana, Tropa de Elite 2 levou consideráveis 1,25 milhão de espectadores às 703 salas onde foi exibido. Hoje atinge cerca de 3 milhões, em números ainda não oficiais. É, já, um fenômeno de bilheteria. Ainda que não dê para dizer até onde possa chegar, tem tudo para se tornar o maior sucesso do cinema brasileiro desde o início dos anos 90, época da chamada “Retomada”. A denominação se aplica ao reinício da produção nacional, interrompida durante alguns anos pelo desmanche do setor durante o governo Collor.

Sucesso à parte, talvez seja interessante, a esta altura do campeonato, comparar um filme com o outro, mesmo porque ambos dizem respeito à questão da segurança pública, tema que mereceria ser melhor debatido na véspera do segundo turno – caso a polêmica religiosa concedesse alguma trégua. Lembremos que, apesar do sucesso de público, o primeiro Tropa de Elite gerou muita polêmica. O pensamento de direita brasileiro, sempre expedito em levar água para seu moinho, aplaudiu um filme que “tratava bandido como bandido e mocinho como mocinho”.

Ou seja, elogiava uma corporação que botava para quebrar, sem qualquer tipo de consideração legal ou moral. Críticas vindas do outro extremo do espectro político encontraram na obra traços de autoritarismo. Muita gente não economizou no adjetivo e chamou o filme de fascista, com certa liberalidade terminológica. E isso não apenas no Brasil. Como Tropa de Elite recebeu um dos principais prêmios internacionais de cinema – o Urso de Ouro no Festival de Berlim de 2007 -, gerou discussão internacional. A revista norte-americana Variety, tida como a bíblia do cinema de entretenimento, foi uma das que viram, embutida na poética do filme, ideias que não desagradariam a Benito Mussolini e seus camisas-negras. A prestigiosa Cahiers Du Cinéma seguiu na mesma direção e chamou o filme de “execrável”, indigno de crítica mais extensa. Entendeu que a premiação em Berlim era das mais equivocadas.

O interessante é que o presidente do júri em Berlim era o cineasta franco-grego Costa-Gavras, paladino do cinema de denúncia, que pode ser chamado de tudo, menos de direitista e menos ainda de fascista. Devem-se a ele títulos tidos como de esquerda como Z, Estado de Sítio e Missing.

Enfim, o filme provocou polêmica que, por sorte, comportou matizes entre as posições mais extremadas. De qualquer forma, era perceptível que o personagem do capitão Nascimento (Wagner Moura) despertava uma espécie de reação catártica na maior parte do público. Na figura do justiceiro implacável e incorruptível, ele parecia ir ao encontro de aspirações latentes no público, a principal delas a solução do problema da violência urbana através de um aumento da repressão, mesmo que ao arrepio da lei. Algumas cenas de tortura, como o uso de sacos plásticos para provocar asfixia, são mostradas de maneira explícita. O batalhão dirigido por Nascimento, o Bope (Batalhão de Operações Policiais Especiais), aparece na história como incorruptível. Tudo o mais lhe é perdoado em troca dessa confiabilidade moral, sentida pelo público como moeda rara na república brasileira.

A identificação com o personagem é reforçada por uma narrativa em off, onipresente, que não deixa grande espaço para reflexão. Além disso, o filme, muito bem realizado, vale-se de bordões que se tornaram populares (“Pede pra sair” é um dos mais lembrados). Tudo conduz a uma relação de fascínio com a obra, dificultando a percepção de conclusões políticas problemáticas e eventuais inconsistências. Se havia uma moral da história em Tropa de Elite 1, ela poderia ser resumida na concepção de Washington Luís sobre a questão social como caso de polícia.

Antes de lançar Tropa de Elite 2, Padilha deu algumas entrevistas preparatórias. Fazia parte da estratégia de lançamento criar, ou ampliar, a expectativa do público pela chegada da continuação às telas. O primeiro da série já havia feito 2,4 milhões de espectadores, além de ter sido impiedosamente pirateado. Números informais (e dificilmente comprováveis) garantem que o público total teria chegado a 11 milhões de pessoas.

Ao preparar o lançamento do segundo filme, o cineasta batia numa tecla sistemática. De acordo com ele, haveria no Brasil duas posições dominantes, e insuficientes, a respeito da segurança pública: “A esquerda acha que tudo depende da solução da desigualdade social; a direita entende que o caminho é o aumento da repressão; nenhuma das duas dá conta da questão da segurança”. Tropa de Elite 2 viria explorar uma espécie de terceira via entre as duas visões de mundo. Querendo “mostrar por que as coisas acontecem desse jeito”, Padilha opta pelo caminho do meio, o da suposta sabedoria. Ao fazê-lo, realiza o contrário do que em geral fazem os cineastas brasileiros. Estes, ao receber alguma opinião desfavorável, colocam-se na defensiva e procuram desqualificar o interlocutor. Padilha pode não gostar de críticas, mas as assimila e, a partir delas, enriquece a sua leitura do real.

Não era impossível, mas exigia certo esforço defender Tropa de Elite 1 de acusações vindas de setores progressistas. É verdade que o capitão Nascimento já dava indícios de uma personalidade conflitada – tinha dúvidas, insônia, angústias e colocava em perigo sua vida pessoal. Era ainda pouco ao lado da convicção com que exercia a truculência no combate à criminalidade.

Esses pequenos desconfortos do capitão eram quase nulos se comparados à verdadeira iniciação à complexidade da vida a que se vê submetido o tenente-coronel Nascimento. Quando “cai para cima” e troca a farda pelo terno e gravata de subsecretário, ele terá de conviver com um ativista de direitos humanos. Mais do que conviver, porque Fraga (decalcado de Marcelo Freixo, deputado eleito pelo PSOL-RJ), interpretado por Irandhir Santos, irá se casar com sua ex-mulher e criar seu filho, um adolescente agora rebelde que questiona os métodos violentos do pai. Mais ainda: será apresentado a um sistema de ideias contraditórias que terá de levar em conta na hora de interpretar a realidade e, em particular, a questão da segurança.

Tropa de Elite 2 já foi comparado, com bons motivos, aos filmes políticos italianos das décadas de 60 e 70, como os de Elio Petri (Investigação de um Cidadão Acima de Qualquer Suspeita, 1970) e Damiano Damiani (O Dia da Coruja, 1967). Como neles, Nascimento parte do particular e estende-se ao geral. À medida em que avança em sua investigação, mais podre e complicado o mundo se apresenta. O truculento e simplório capitão vai se sofisticando. Descobre que o combate ao tráfico talvez não possa se limitar à prisão ou morte do traficante.

Aprende o papel das milícias no controle dos morros. Nota a cumplicidade da banda podre da polícia com a mídia sensacionalista e o governo do Estado. Nota como tudo isso se associa entre si e forma um complexo difícil de ser desfeito.

Nascimento chama de “o sistema” essa rede de relações espúrias. A aliança do crime com comunicadores venais, políticos corruptos e com o próprio aparelho do Estado forma algo impessoal, que cresce, progride e se defende com lógica própria, como um organismo autônomo, independente de quem sejam seus agentes em determinado momento. Estes entram, saem, são eliminados quando já não se mostram úteis e o “sistema” cuida da própria sobrevivência. Entre o relativo primarismo do primeiro filme e a (também relativa) sofisticação intelectual do segundo há, de fato, uma diferença e tanto.

Ela não se expressa de maneira mais completa porque o diretor não consegue abandonar de todo sua vocação cartesiana de simplificar o que lhe parece complexo. Nesse ponto, a diferença entre ele e os cineastas políticos italianos parece significativa. Nestes, a ascensão rumo às fonte originais do mal (porque é dele que se trata) se dá numa atmosfera de opacidade crescente, porque, por mais que se diga, a transparência não é uma das características da engrenagem política. Em Tropa de Elite 2, não é assim. Aliás, é exatamente o contrário: à medida em que Nascimento progride em sua compreensão do mundo, este se torna cada vez mais claro e límpido, como se, ao final, ele pudesse dispor de uma visão absoluta do social a partir do seu ponto de observação privilegiado.

Para que isso seja possível, todos os elos devem parecer muito evidentes e às vezes as relações se tornam mecânicas e caricatas, de tão explícitas. O desejo de compreender incorre no pecado da simplificação extrema e, portanto, da perda de matizes e do sentido da real complexidade das coisas. Por outro lado, ao se tornar porta-voz de um sentimento generalizado que tem a política na conta de irremediável antro de corrupção, Padilha perde a oportunidade de discuti-la a fundo. Se a segurança, afinal de contas, é uma questão política, sua solução possível seria apenas e tão somente política. Mas, como contar com ela, se a política é vista como intrinsecamente corrupta e portanto incapaz de voltar-se contra si mesma? A presença em cena de um ou outro homem decente, como Fraga (e até mesmo o arrependido Nascimento), parece pouco para arranhar, mesmo que de leve, o tal sistema.

Em Tropa de Elite 2, Padilha denunciou a política e os políticos. Faltou-lhe ser, de fato, um artista político, alguém que compreenda a enormidade do problema que se propôs discutir. Esse salto, ele ainda não deu. Quem sabe no Tropa de Elite 3?

(Aliás, 17/10/10)

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