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Ó Paí, Ó

Luiz Zanin Oricchio

02 de abril de 2007 | 21h17

Em outro lugar deste blog já me defini como um paulistano civilizado pela Bahia. Adoro Salvador e acho que se os direitos humanos fossem respeitados mesmo todo mundo poderia se dar ao luxo de passar algum tempo por lá. Por isso mesmo, minha expectativa em relação a Ó, Paí Ó, de Monique Gardenberg era a melhor possível. Não me decepcionei muito, mas esperava mais.

A história passada entre o carnaval de rua e o cortiço administrado por uma crente reprimida me pareceu bastante engenhosa. Tanto que acho até que foi mal explorada no desenvolvimento do filme. Uma certa baianice estereotipada me incomodou durante a primeira metade, bem como o abuso dos super closes dos rostos dos atores e do uso sem imaginação do campo e contracampo. Linguagem quadrada, que poucas vezes fica mais solta, com a câmera na mão. Na segunda metade melhora, inclusive na textura da imagem, na câmera e no envolvimento dos personagens. Com mais energia, o filme se tonifica. Há um achado interessante, quando mostra que uma tragédia vai se tecendo em surdina à medida em que a comédia evolui. E não se pode dizer que o final (que, óbvio, não vou contar) não tenha impacto. Tem, e muito.

De qualquer forma, Ó, Paí Ó parece um herdeiro pop daquela tradição dos Centros Populares de Cultura, da UNE, que está na origem do Cinema Novo. Só que essa estética, como se sabe, foi recuperada pela TV Globo sob uma feição mais domesticada. O “povo” é filmado com simpatia, a música é bonita e Salvador respira pura energia. Às vezes Ó, Paí Ó resvala e parece comercial da Bahiatursa, mas se recupera em cenas que nada têm de “turísticas”.

Enfim, é um produto híbrido que, por isso mesmo, nos faz experimentar sentimentos contraditórios em relação a ele. Vai dar certo em termos de público? Não sei, porque Ó, Paí Ó expõe, no fundo, uma idéia de “brasilidade”, um sentimento difuso e positivo do País (sem esconder sua tragédia social) que já não consta mais da agenda da classe média, o principal público-alvo do cinema. Recebi há pouco um e-mail da distribuidora comunicando que o filme teve quase 50 mil espectadores em seu primeiro fim de semana. Com cem cópias circulando, isso dá quase 500 por cópia. É bom, mas não excelente. Vamos ver até onde chega.