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O ouriço e a raposa

Luiz Zanin Oricchio

18 de março de 2008 | 14h49

Domingo à noite, depois do clássico em que o Palmeiras detonou o São Paulo por 4 a 1, lembrei de um antigo poema que fala do ouriço e da raposa. Antigo? Bom, ponha antiguidade nisso, pois quem falou dos dois bichos foi um certo Arquíloco, poeta que viveu no século 7 antes de Cristo. Eu nem sei se naquele tempo a bola rolava na velha Grécia, mas, em todo caso, ele dizia mais ou menos o seguinte: a raposa sabe muitas coisas, mas o ouriço sabe apenas uma grande coisa. Uma é cheia de truques; o outro conhece muito bem apenas um, que lhe basta para sobreviver.

O Palmeiras está com a cara da raposa, que aliás é a mascote do Cruzeiro, campeoníssimo quando treinado em 2003 pelo mesmo Vanderlei Luxemburgo que hoje é técnico… do Palmeiras. Já o São Paulo, de Muricy Ramalho, se parece com esse ouriço duro na queda, áspero e obstinado, mas dependente, cada vez mais, de um “truque” solitário, um tipo de jogada manjado por todos e que continua a dar certo – o cruzamento de bolas na área por Jorge Wagner à procura de uma cabeçada letal – em geral de Adriano. E foi por aí mesmo que nasceu o único gol do tricolor no clássico.

Já a “raposa” Palmeiras dispõe de muitas maneiras diferentes de chegar ao gol adversário e domingo, em seus momentos felizes do jogo, usou e abusou desses recursos. Claro, um dirigente são-paulino dirá que foram nada menos que três gols de pênalti (bem marcados, a meu ver), mas, e os lances que levaram às penalidades? Não resultaram desse repertório ofensivo mais amplo do Palmeiras, a raposa da nossa história?

Não quero supervalorizar o trabalho dos “professores” (que, no entanto, estão lá para alguma coisa, certo?). Cabe a eles preparar o omelete com os ovos que têm. E, a esta altura do campeonato, a cozinha de Luxemburgo parece mais bem abastecida que a de Muricy, mesmo que este também disponha de alguns jogadores acima da média brasileira. Como o próprio Adriano que, por falar nisso, talvez tenha feito no domingo a sua melhor partida pelo São Paulo.

De qualquer forma, entraram em campo em Ribeirão Preto duas idéias diferentes de futebol: uma, de jogo duro, marcado, porém de repertório mais limitado; e outra, de jogo leve, variado, com muito deslocamento e mais plasticidade na armação e no ataque. Qual a melhor opção? A pergunta não pode ser respondida de maneira simples. Ouriço e raposa podem se dar melhor do que o adversário, de acordo com as circunstâncias de momento.

Domingo foi a vez da raposa que, vamos admitir, vai à caça de uma maneira que nos agrada mais, a nós, brasileiros, que ainda temos na memória um determinado estilo de jogar bola. Agora, se o ouriço se recuperar, der a volta por cima, entrar no G-4 e for campeão, não ficarei surpreso. Tudo é bem possível. Mas, passada a fase das reclamações, talvez seja tempo de o São Paulo reconhecer que não está usando seus recursos com a mesma eficácia do ano passado. Vendeu muitos jogadores e não os repôs, como costumava fazer.

Para não ficar em cima do muro, vou logo dizendo que acho a maneira de jogar do Palmeiras, com muita mobilidade na frente e troca de posições, mais adequada ao futebol atual. Tende a vencer, desde que o esquema esteja bem montado e haja jogadores habilidosos para colocá-lo em prática. O esquema só sai da prancheta para o campo nos pés dos boleiros e às vezes nos esquecemos disso.

(Coluna Boleiros, 18/3/08)

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