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O Oscar vai para…Ronaldo *

Luiz Zanin Oricchio

14 Janeiro 2014 | 09h19

Globo de Ouro, Oscar, Bola de Ouro. O ano começa com a obsessão mundial pelos prêmios. Queremos saber quais foram os melhores do ano que passou. É assim no cinema, no futebol, em várias outras artes. Mas os prêmios nos dizem de fato quem é o melhor?

Vejamos o caso do Oscar, o mais badalado dos prêmios do cinema. É um prêmio da indústria norte-americana de cinema, criado para celebrar essa mesma indústria. Por mais que afetem espírito universal, estrangeiros são apenas tolerados nessa premiação.

A festa é deles, foi criada para celebrá-los e turbinar a indústria da qual fazem parte. Desse modo, dificilmente uma pessoa de bom senso pode dizer que o filme premiado é o melhor do ano que passou, embora tenha recebido a maior parte dos mais de seis mil votos dos integrantes da Academia de Los Angeles. No mundo do cinema, outros prêmios são igualmente importantes. Há os prêmios ao cinema independente, os grandes festivais do mundo (Berlim, Cannes e Veneza) e vários países organizam suas premiações.

No mundo do futebol vê-se menos dispersão. Basta lembrar que, antes, o prêmio era atribuído ao melhor jogador europeu, o que era mais realista. A Fifa, com sua vocação universal (e imperialista), transformou-o em prêmio ao melhor do mundo. Unificou-o. Votam técnicos, capitães de seleções e jornalistas, um por país – no Brasil, o jornalista eleitor é Cléber Machado, da TV Globo. Será esse colégio eleitoral o mais democrático? A própria Fifa o questiona. Em todo caso, a Bola de Ouro, diferentemente do Oscar, está mais próxima de escolher aquele que de fato é o melhor do mundo. Num dado momento.

Por quê? Simples, se no cinema os Estados Unidos são um entre vários produtores de filmes no mundo, no futebol a Europa tornou-se uma espécie de monopólio universal da qualidade. Em virtude do seu poderio econômico e de sua forte organização (uma coisa tem a ver com a outra), a Europa atrai os talentos do mundo inteiro. Então, é altamente provável que o melhor jogador em ação na Europa seja, de fato, o melhor jogador do mundo.

Exatamente por isso as ligas europeias são as mais divulgadas e assistidas no resto do mundo. Será que os votantes da Bola de Ouro assistem com a mesma atenção aos campeonatos sul-americanos ou africanos? Claro que não. Mesmo que, por hipótese, despontasse algum talento excepcional fora do centro (europeu), dificilmente ele teria a mesma visibilidade de um jogador atuando na Europa. Dessa forma, a Bola de Ouro, ainda que justa, tende a tornar-se auto referente. Como o Oscar, que para isso mesmo foi criado.

Esse é o sentido, acredito, da Bola de Ouro especial concedida a Pelé “por serviços prestados ao futebol”. Bem, Pelé, de fato, prestou serviços inestimáveis ao futebol, pelo simples fato de existir e ter jogado o que jogou. Ganhou tudo o que um jogador pode ganhar. Faltava-lhe (mas faltava mesmo?) um único troféu, justamente essa Bola de Ouro, que não ganhou porque não existia em sua época de atleta ativo. Mas como um prêmio pode ser levado a sério se não tiver premiado o maior de todos os tempos? Dessa forma, mais que dignificar o atleta do século, a Bola de Ouro especial dignifica-se a si mesma pelo fato de ter sido entregue a Pelé.

Dito isso, é claro que a premiação de Cristiano Ronaldo foi justa. O português recebe o título de melhor do mundo pela segunda vez – a primeira foi antes da série de quatro títulos concedidos a Messi. O troféu tem de ser atribuído não pelo histórico, mas pelo que o atleta produziu durante o ano anterior. E é evidente que Ronaldo, no ápice da sua forma, média de mais de um gol por jogo, não tinha concorrentes. Mesmo porque Messi viveu um ano complicado, atrapalhado por contusões. E Ribéry, apesar da campanha excepcional do seu time, o Bayern de Munique, não possui o mesmo carisma dos outros dois.

Isso quer dizer que Cristiano Ronaldo é melhor do que Lionel Messi? Não: apenas que Ronaldo teve um ano melhor que o de Messi. O que foi bastante para garantir-lhe o Oscar do futebol.

 

* Coluna publicada originalmente na seção de Esportes do Estadão