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O Oscar e os prêmios

Luiz Zanin Oricchio

18 Janeiro 2007 | 17h32

Vi que o post sobre a ausência do Brasil no Oscar gerou comentários interessantes. Cada qual tem sua opinião sobre o assunto. No meu caso, permitam um depoimento pessoal. Antes de me tornar jornalista profissional eu tinha uma relação com o cinema totalmente distanciada de tudo que o cerca – celebridades, festas, premiações, badalações, etc. Só me interessavam os filmes. Não me lembro de ter assistido qualquer cerimônia do Oscar na minha juventude. Queria ver filmes, todos que pudesse de preferência, mas em especial a época de ouro do cinema americano, e os grandes filmes europeus, que compõem o núcleo da minha formação cinematográfica, além dos brasileiros, é claro, porque nunca tive problemas com meu país e sua cultura.

Mais tarde, por razões profissionais, tive de aprender a cobrir e escrever sobre premiações, festivais, e, ocasionalmente, até sobre celebridades do mundo do cinema. Ainda assim, mantenho uma relação de distanciamento crítico em relação a tudo isso. Continuam me interessando os filmes. O resto, para mim, é detalhe. É uma posição pessoal, nem melhor e nem pior do que as outras.

Por outro lado, entendo o valor, digamos, tático, que pode ter uma premiação. O próprio pessoal do Cinema Novo tinha uma visão realista sobre isso. Precisava conquistar festivais para que, por tabela, ganhasse respeitabilidade tanto fora como dentro do Brasil. Gláuber, Ruy Guerra e outros fizeram furor em Cannes, Berlim, Veneza, Pesaro, Karlov Vary, eventos que, com sua repercussão, contribuíram para a fama internacional do cinema brasileiro. Quando viajo, percebo que esses filmes – e diretores – são lembrados até hoje em vários países da Europa, França e Itália em especial. Essa memória sedimentada se deve, em boa parte, às premiações nos festivais. Eles cumprem essa função.

Por exemplo, foi muito importante para o cinema brasileiro quando O Pagador de Promessas ganhou a Palma de Ouro em Cannes, em 1962, e seu diretor, Anselmo Duarte foi recebido no porto de Santos como se tivesse vencido uma Copa do Mundo. Mais recentemente, a tal da retomada do cinema brasileiro ganhou foro internacional com a vitória de Central do Brasil em Berlim. Vidas Secas, Deus e o Diabo na Terra do Sol, o Dragão da Maldade, são títulos até hoje lembrados em sua passagem por Cannes. Ignorar a importância dessas distinções é fazer de conta que a realidade não existe.

Também acho o Oscar chato e só o assisto por dever profissional. Agora, vários filmes que considero muito bons, e até obras-primas, já venceram esse prêmio, com aconteceu com obras de Fellini (Oito e Meio, em 1963, e Amarcord, em 1974) e Luis Buñuel (O Discreto Charme da Burguesia, em 1972), para falar de dois mestres. Assim, não dá para dizer que o Oscar só premia filme ruim. Como não dá para dizer que um filme não seja significativo só porque foi ignorado pelo Oscar. São coisas distintas e o exemplo mais banal é o de Cidadão Kane, o clássico dos clássicos do cinema americano e que não faturou a estatueta. Enfim, são coisas diferentes.

Já participei de uma dessas comissões que escolhem o filme brasileiro para tentar o Oscar e procurei fazer o meu trabalho da melhor maneira possível. Isto é, tentando adivinhar que filme teria melhores chances de chegar à finalíssima. Não deu certo, porque é muito difícil saber o que se passa na cabeça dos outros, e ainda mais quando esses outros se contam às centenas e são membros da Academia de Hollywood.

O Oscar pode ter um valor tático, de mercado, para o Brasil. Mas não é a comissão do Oscar que vai decidir se estamos fazendo cinema bom ou ruim por aqui. Esse é assunto do público, da crítica, e da História, que diz a longo prazo o que fica e o que foi fogo de palha. É só isso. Ou pelo menos esta é minha opinião sobre o assunto. Não sei a de vocês.