O ódio à cultura
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O ódio à cultura

Corte de financiamento a atividades artísticas dá forma econômica ao desprezo pela cultura

Luiz Zanin Oricchio

16 de abril de 2019 | 10h55

Incêndio do Museu Nacional, no Rio

O problema é o Brasil ser um país em construção.

Problema maior é que, quando se abre uma janela de oportunidade para que dê um salto à frente, ela é rapidamente fechada por gente poderosa que tem medo do progresso. E então o país dá vários passos atrás, para que tudo recomece do zero. Ou quase.

Nesse contexto deve ser entendido o ódio à cultura expresso pelo atual governo. Fechar as fontes de financiamento significa apenas dar forma econômica a esse ódio. Equivale a estrangular no nascedouro aquilo que se teme.

E por que o temor à cultura?

Bem, há essa desconfiança reverencial do “homem comum” em relação àquilo que ele não entende. Há uma mescla de repúdio “intelectual” e moral nessa atitude. Não precisamos nem lembrar a qualificação de “arte degenerada” que os nazistas davam às obras modernas. Ou de “arte burguesa” que os stalinistas davam às vanguardas soviéticas.

A questão não enxergada pelo homem medíocre, tão bem representado nos cargos mais altos da República, é o de uma nação sem cultura ser desprovida de ossatura simbólica consistente.

Por exemplo, quando a França chora o incêndio da Catedral de Notre-Dame, é menos pelo edifício em si e mais por aquilo que ele representa – um depositário simbólico de oito séculos de História. É disso que se trata e por isso Macron, que é francês e não é bobo, já declarou toda a prioridade à restauração da velha igreja. Apenas para efeito de comparação, e bem guardadas as diferenças entre as duas coisas: quando o Museu Nacional pegou fogo no Rio, o atual ocupante do Planalto apenas disse: “E você quer que eu faça o quê?” Como quem diz: “E eu com isso?”

De fato, nem ele e nem seus auxiliares e seguidores têm qualquer coisa a ver com isso. Entendendo-se por “isso” o que é a própria alma de uma nação digna desse nome: seu patrimônio histórico, uma cultura reconhecível e que empresta dignidade ao seu povo, as formas artísticas que lhe permitem reconhecer-se parceiro do conjunto das outras nações e consciente da sua originalidade.

Tudo isso – repito – estava e está em construção. E, convenhamos, construção ainda bem precária. Gerações de grandes brasileiros, como Mário de Andrade, Rodrigo M.F. de Andrade, Darcy Ribeiro, Anísio Teixeira, Paulo Freire, Antonio Candido e outros sabiam disso. Sabiam da necessidade de nos construirmos como nação porque ninguém iria fazê-lo por nós. Sabiam da necessidade de termos uma literatura, um cinema, uma arquitetura, uma pintura, uma universidade, etc. Sem os espelhos simbólicos da cultura para nos vermos refletidos somos apenas um amontoado de gente, não um povo.

Há os que tentaram construir o Brasil, com os meios de que dispunham. Os que hoje dirigem o país vieram para destruí-lo. O próprio presidente da República já fez essa afirmação. Ninguém o contestou.

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