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O novo Retrato de Dorian Gray

Luiz Zanin Oricchio

28 de março de 2011 | 09h42

O romance O Retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde, é um desses casos raros da literatura que se tornou referência imediata. Não é preciso ter lido o livro para conhecer, por ouvir dizer, a história do devasso que se conserva jovem em meio a uma vida de vício e crimes, enquanto um misterioso retrato, feito quando era jovem, envelhece e se degrada em seu lugar. Mesmo porque o cinema já se incumbiu de mostrar inúmeras vezes a história ao grande público, sendo a versão mais próxima de ser chamada clássica a de 1945, dirigida por Albert Lewin, tendo Hurd Hatfield como Dorian e Georges Sanders no papel do seu mentor, Lord Henry Wotton. A mais recente, agora em cartaz, é a de Oliver Parker com Ben Barnes como Dorian e o vencedor do Oscar, Colin Firth (de O Discurso do Rei), no papel de Wotton.

O que traz de novo essa versão atual? Muito pouco, em relação às outras – a não ser no aspecto tecnológico, com efeitos especiais um tanto acima do tom, aplicados ao fatídico retrato. No resto, respeita-se a época em que a história se passa, a soturna Londres do século 19, com suas tavernas escuras e prostitutas decadentes. Tudo cheirando a sordidez e pecado, como não poderia deixar de ser, pois, afinal, uma das muitas implicações da história é a de que acabamos pagando caro por todas as nossas transgressões. Wilde não era um moralista menor, mas sabia do falava, tendo sido condenado a dois anos de prisão, com trabalhos forçados, por “atos imorais com rapazes”. O Retrato de Dorian Gray,escrito anos antes, funciona como uma espécie de premonição sobre a consequência dos prazeres carnais.

Na história, Dorian é o jovem provinciano que se muda para Londres depois de herdar uma fortuna. Nos salões mundanos, conhece Lord Wotton, que o adota como discípulo e prega que todos os prazeres carnais devem ser experimentados. Não se deve ter culpa e nem levar os outros seres humanos em grande consideração. Dorian mostra-se aluno melhor do que o mestre. Basil Hallward (Ben Chaplin) faz o seu retrato, que passa a envelhecer e a levar as marcas do vício, enquanto os anos passam e Dorian pinta e borda pelos bordéis do mundo sem que uma única ruga se instale em seu rosto.

Talvez a história ficasse ainda mais forte se Parker lhe desse a atualidade que ela de fato tem. No entanto, ele permanece numa leitura um tanto acadêmica, que nada avança em relação a outras versões. Esse caminho, meio burocrático, toma outra direção no desfecho e então flerta com o trash. A interpretação de Barnes (de As Crônicas de Nárnia) é plana e amorfa; a de Firth é elegante, e não disfarça uma atitude um tanto irônica em relação ao papel.

Inútil dizer que a história, uma síntese da aspiração à eterna juventude e do pacto demoníaco, serve perfeitamente para o nosso tempo de plásticas, botox e superficialidade.

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