As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

O “novo Messi”

Luiz Zanin Oricchio

29 Janeiro 2008 | 16h48

A torcida do Santos, que tanto pedia reforços, não tem mais do que reclamar. Afinal, no domingo, o time entrou em campo com “o novo Messi” vestindo a camisa sete. Pelo menos é a interpretação do jornal espanhol Marca, que já comparou o novato Tiago Luís ao titular do Barcelona e da seleção argentina.

Hoje em dia é assim. O garoto faz meia dúzia de gols e umas firulas, e algum profeta já clama aos quatro ventos: é o novo Robinho, o novo Ronaldinho Gaúcho, quem sabe o novo Maradona. O céu é o limite.

Tempos atrás, um publicitário conhecido deu uma entrevista comparando as coberturas esportivas de diferentes veículos. Disse que certa imprensa tratava melhor as pessoas do que outra, pois “promovia” mais os atletas emergentes. Por exemplo, um garoto entra em campo como titular pela primeira vez e arrebenta. A imprensa mais séria, que ele considera sisuda e mal-humorada, escreve que é preciso dar tempo ao tempo para ver se o menino é bom mesmo, lembra que muitos fizeram e aconteceram no primeiro jogo e depois desapareceram, etc. Enfim, essa é uma imprensa estraga-prazeres. Já a outra, que o nosso marqueteiro elogia e prefere, diante de um caso desses abre a manchete e crava: “Surgiu o novo Messi”.

Ele vê nessa atitude festiva uma virtude e sua opinião diz tudo o que é preciso saber sobre o nosso tempo. Vale a manchete, o grito, o relâmpago. Aquilo que pode faturar alto se for bem embalado e vendido. Como eles mesmos dizem, se a galinha não cacarejar, ninguém vai saber que botou o ovo. E outra: o futuro a Deus pertence. Portanto, para que pensar no que pode acontecer mais adiante? A sociedade publicitarizada (êta, palavrinha) vive da celebridade da hora. Amanhã, se o garoto não der certo, quem vai se lembrar da notícia escandalosa? Ou quem vai se importar com o próprio garoto? Outro Messi imaginário já terá surgido.

Claro, nós, que não nascemos ontem, temos mais ou menos idéia de onde vem tudo isso. Não se trata apenas de uma questão de imprensa marrom ou séria, ou mesmo da mentalidade (superficial) de uma época. Trata-se sobretudo do fator econômico. Muitas vezes, essas “notícias” e manchetes são plantadas pelos próprios interessados. Ou seja, por quem tem a intenção de negociar o garoto prematuramente e faturar alto e rápido em cima disso.

Não quero aqui demonizar essa figura do intermediário, que “arranca os meninos dos clubes e os entrega aos bichos-papões europeus”. Tudo é mais complexo, mesmo porque a avidez das famílias dos atletas jovens e dos clubes formadores também tem parte nesse latifúndio. E há outro dado: parasitas só existem e engordam quando se criam condições favoráveis a eles, como no caso do Brasil e sua política francamente exportadora de pé-de-obra.

Quanto a Tiago Luís, vamos vê-lo como é. Um garoto promissor, que tem muito o que crescer e aprender. Fez boas partidas na Copinha e, no primeiro jogo no time de cima do Santos, mostrou personalidade, bom domínio de bola e oportunismo. Bem lançado, pode vir a ser titular, mas cabe a Leão orientá-lo e, se for o caso, baixar um pouco sua bola. Mesmo jogando bem na partida contra o Bragantino, vez por outra se mostrou individualista demais. E não sem motivo. Já não haviam enfiado em sua cabeça que ele era o “novo Messi”?

Essa gente que só pensa em dinheiro não sabe o mal que faz aos outros. Ou talvez saiba, e apenas não se importa.

(Esportes, Coluna Boleiros, 29/1/08)