O novo ‘A Hora e a Vez de Augusto Matraga’
As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

O novo ‘A Hora e a Vez de Augusto Matraga’

Nova versão da novela de João Guimarães Rosa tem qualidades, mas certa grandiloquência tira um pouco de sua força

Luiz Zanin Oricchio

27 Setembro 2015 | 20h58

 

João Miguel, Matraga na versão de Vinícius Coimbra

João Miguel, Matraga na versão de Vinícius Coimbra

Será preciso uma pirueta dupla para entrar de alma pura em A Hora e Vez de Augusto Matraga, de Vinícius Coimbra. A primeira, para esquecer o conto de Guimarães Rosa; a segunda, para expulsar da memória (temporariamente) a primeira versão da história para o cinema, a de Roberto Santos, em 1965. Conseguidas as duas proezas, estamos prontos para ver o novo filme.

E ele não é nada mau, como enredo, realização, fotografia e atuação. João Miguel faz um Matraga (aliás, Augusto Esteves) beirando à perfeição. Esteves é um tipo muito mal encarado, vivendo nas profundas das Gerais. Filho de fazendeiro, ele próprio dono de terras e chefe de bando, maltrata homens, mulheres, e espalha brasas por onde anda. É um malfeitor.

Mas um dia ele se dá mal e as coisas ficam feias para o seu lado. Toma uma surra dos capangas de um inimigo, que o deixa semimorto, largado num despenhadeiro. Aliás, todo mundo, a começar pelo tal coronel (Chico Anysio), terminando pela mulher que o abandonara, o dão como findo e finado. Mas Nhô Augusto, tratado por um casal de negros benzedeiros que o encontrou, sobrevive. E, redivivo, não trama vingança, mas tem um plano ainda mais ambicioso para si – redimir-se, expiar suas culpas e merecer seu cantinho no céu. Espera sua “hora e vez”, conforme a exortação de um padre (José Dumont) que lhe dá refresco espiritual na hora do sufoco.

Numa leitura “western” da história, poderíamos achar que Nhô Augusto está em busca da “segunda chance”, esse tema recorrente do cinema americano, mas não apenas dele. Hollywood apenas simplifica (como quase sempre). O que significa isso? O sujeito erra na primeira vez, mas a todo mundo é dada uma segunda chance, e ele a aproveita. Pode ser alguém mau que comete um ato de bondade, ou um covarde que se torna valente. Há dezenas, talvez centenas de histórias, variantes sobre esse tema. Fiquemos apenas com um, A Glória de um Covarde, de Stephen Crane, filmado por John Huston. O curioso é que Huston, para interpretar o personagem que foge, mas depois enfrenta a batalha na Guerra Civil com bravura, escolhe um herói condecorado da 2ª Guerra Mundial, Audie Murphy.

Já a redenção proposta a Augusto Esteves é primeiro a da negação da violência. Que, para ele, significa repressão de seus instintos mais básicos. O padre o ensina a repetir a frase “Jesus, manso de coração, faz meu coração tão manso como o teu”, em situações nas quais o ódio parece transbordar. É um caminho de mansidão, portanto de renúncia da vingança e da violência física. Acontece que a história tem outra torção e diante de Nhô Augusto se coloca a seguinte questão, sempre um dilema: a violência se justifica caso possa impedir um mal maior? E, nesses casos, a inação não seria um pecado ainda maior do que a intervenção violenta? Então, por onde passa o resgate moral do antigo desordeiro: pela mansidão, tal como ensinou o padre, ou por uma ação justa, porém sanguinária? Inútil ressaltar as ressonâncias políticas de tudo isso, também plenas de implicações éticas.

Acho que o filme tem boa embocadura para encaminhar a narrativa a este desenlace moral. Os atores também estão bem, e, claro, João Miguel entrega-se ao papel como possuído por aquela alma atormentada em busca de alguma grandeza dentro de si. É pena que se tenha decidido colocar música grandiloquente para sublinhar alguns momentos-chave da trama, o que contribui, por paradoxo, para enfraquecê-los. Em termos sonoros, o filme começa e termina bem, com Tom Jobim (Matita-Perê, no final), mas o miolo da trama fica bem comprometido. Além do mais, as filmagens em câmera-lenta, à Tarantino, ou melhor, à Peckinpah, espetacularizam determinadas cenas que talvez fosse melhor manter mais desidratadas. O golpe seco às vezes é mais eficaz.

De resto, o filme contribui para matar nossas saudades de dois grandes que já se foram – Chico Anysio, no papel do coronel rival de Nhô Augusto, e José Wilker, como Joãosinho Bem Bem, o chefe do bando de jagunços. O filme também escala gente conhecida em pequenos papéis, como Werner Schünemann como aquele que vai levar embora a mulher e filha de Augusto, e Claudio Jaborandy como o pai da família ameaçada pelos jagunços. Há outros nomes famosos no elenco, como Gorete Milagres, que faz a Sariema, “leiloada” numa feira de domingo, e Julio Andrade, como um dos integrantes do bando de Bem Bem. Ou seja, não faltou talento na composição do elenco e nem na concepção geral do filme.

O que o enfraquece, em nossa opinião? Talvez a procura um tanto acrítica daquilo que “agrada” o público, essa Esfinge permanente do cinema brasileiro. Essa busca injeta gordura adicional sob a forma de música e planos tão espetaculares como dispensáveis. Mais seco teria ficado melhor. Mais ágil. Mais contundente.