O Nobel de Vargas Llosa
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O Nobel de Vargas Llosa

Luiz Zanin Oricchio

07 de outubro de 2010 | 10h23

Todo mundo sabe que o peruano Mario Vargas Llosa é um dos maiores escritores contemporâneos. Só a turma da Academia Sueca não sabia. Agora sabe. Llosa ganhou o Nobel. Justo. Justíssimo. Na verdade, Llosa poderia ter escrito apenas um livro – Conversa na Catedral – para merecê-lo. É um dos maiores, mais ambiciosos e complexos romances da literatura hispano-americana. Construído, como uma catedral, a golpes de experimentalismo narrativo (mudanças constante do foco narrativo), memorialismo e ficção política. O Peru, com todas as suas contradições grandiosas, está contido ali, naquelas páginas. Para ler e reler a vida inteira.

Mas, claro, Llosa tem vasta obra. Do também memorialista (ainda que ficcional) A Cidade e os Cachorros, aos cômicos Tia Julia e o Escrevinhador e Pantaleão e as Visitadoras. A Festa do Bode fica no registro político de (mais uma) ditadura latino-americana e Travessuras da Menina Má é daqueles livros que não se consegue largar. Llosa é dono e senhor da arte narrativa. Não se pode esquecer também, pela proximidade com nossa história, de Guerra no Fim do Mundo, em que ele ficcionaliza a tragédia de Canudos.

Como este blog é variado, mas tem foco no cinema, convém lembrar que seu conterrâneo Francisco Lombardi adaptou A Cidade e os Cachorros e Pantaleão e as Visitadoras. Ambos muito bons, mas o primeiro é superior ao segundo. Nunca foi lançado no Brasil. O próprio Llosa dirigiu, com Jon Amiel, uma versão de Tia Júlia e o Escrivinhador. E há uma adaptação russa de A Cidade e os Cachorros chamada El Jaguar, que é o nome de um dos protagonistas do romance, o recruta rebelde.

Li também, faz muitos anos, sua autobiografia Peixe na Água, muito boa, curiosa, sincera e (claro) extraordinariamente bem escrita. Nela, ele narra, entre muitíssimos outros eventos de sua vida, a disputa com Alberto Fujimori pela presidência do Peru, da qual saiu derrotado. Na época, me lembro de ter ficado impressionado com a ingenuidade política de alguém que havia escrito páginas tão maduras em seus romances.

Mas é assim: mesmo grandes homens têm suas zonas de sombras, pontos cegos e uma inevitável cota de burrice. Com Llosa não é diferente. E ele escreveu Conversa na Catedral, que o redime de tudo, até mesmo da fé cega nas virtudes civilizatórias do liberalismo econômico.

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