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O mundo pessoal de Rubem Fonseca

Luiz Zanin Oricchio

11 de novembro de 2007 | 01h56

Qualquer um conhece as vantagens de manter um site ou blog na internet: neles, podemos tornar públicos pensamentos, idéias, relatos de viagens, devaneios, anotações – tudo aquilo que não teria outro destino a não ser os já muito fora de moda diários íntimos. Quando se trata não mais de um comum mortal, mas de um escritor famoso como Rubem Fonseca, o caso muda de figura. Conhecemos Fonseca por seus contos e romances, mas não sabemos direito como pensa sobre outros aspectos da vida, mesmo porque mantém a sábia decisão de não conceder entrevistas. A diferença é que ele pode transformar exercícios de internet em livro. O Romance Morreu, lançado agora pela Cia. das Letras, é composto desses textos virtuais, levemente modificados.

Fonseca escreve em seu site, abrigado no Portal Literal (o endereço é portalliteral.terra.com.br/rubem-fonseca), e tem como colegas de espaço virtual autores como Lygia Fagundes Telles, Ferreira Gullar, Luis Fernando Verissimo e Zuenir Ventura. O portal é patrocinado pela Petrobras, tem curadoria de Heloisa Buarque de Holanda e é promovido pela produtora carioca Conspiração.

O título da coletânea é o do primeiro texto, justamente a discussão sobre a sobrevivência do romance na época de escrita rápida pela internet. Fonseca chega à conclusão de que os leitores podem talvez acabar um dia, mas o romance tem longa vida pela frente. Kafka escrevia para si mesmo, lembra. E, segundo a lenda, o poeta épico Camões , tendo de optar entre a amada e Os Lusíadas, durante um naufrágio, deixou que a mulher fosse ao fundo e agarrou-se ao manuscrito. Esse apego do escritor à obra garantiria a sua sobrevivência, mesmo em época ingrata como a nossa.

Em seus textos, Fonseca escreve sobre literatura, mas também sobre assuntos variados como a Copa do Mundo de 1950, masturbação, pornografia, o travesti Viveca nas gravações de Mandrake (série de TV baseada em livro seu), o mar, a praia, o sol, a pele, a queda do Muro de Berlim, uma viagem recente a Israel, Jack o estripador, a praga dos spams, Michael Jackson, etc. Enfim, exercita esse dom de todos nós – a curiosidade – colocando no papel, ou na tela do computador, suas reações a tudo aquilo que a desperta. E o faz com auxílio de outro dom, este nem tanto difundido, o da escrita clara.

Porque, sim, deve-se dizer que, embora nem todos os textos sejam profundos e/ou originais, como se esperaria de um grande escritor, são todos bem agradáveis de se ler. E exibem outra característica, rara no mundo blogger: apesar de pessoais, são muito pesquisados e informativos. O que não chega a ser surpresa em se tratando de Rubem Fonseca, autor que se utiliza de erudição enciclopédica mesmo em sua ficção, na qual pode discorrer em páginas e páginas sobre diversos tipos de facas, batráquios e marcas de charutos.

Enfim, são textos pessoais mas não insuportavelmente umbilicais como os da maioria dos blogs, que servem mais ao narcisismo do autor que a um pretenso diálogo. Rubem Fonseca é escritor profissional. Isso quer dizer que tem sempre em vista um hipotético leitor. No seu caso de autor de sucesso, uma multidão deles. E, assim, trata de tornar agradável temas que seriam insípidos sob pena menos inspirada, como sua obsessão por bulas de remédios.

De longe, o texto mais ambicioso – e também um dos mais extensos – é o relato de uma visita recente a Israel, em companhia de vários outros escritores brasileiros. O que se espera de um relato de viagem? Que seja vívido e nos transmita, pelas palavras, “imagens” de lugares que não conhecemos; que interprete o que vê e essa interpretação não seja banal, não fique aquém daquele objeto (o país desconhecido) observado pelo viajante. Temos disso no texto de Rubem Fonseca. O olhar arguto, o humor, a atenção para com as semelhanças e as diferenças. (Toda viagem, no fundo, consiste na aproximação e na discussão desse par de aparentes opostos, a semelhança e a diferença entre pessoas e povos.)

Mas, se Rubem Fonseca consegue prender o leitor num grande tema como é o da viagem, nos “pequenos” assuntos se torna ainda mais atraente (coloco aspas porque não existem temas menores, apenas temas bem ou maltratados). Assim, em La Cabeza Rubia de Fonseca, pode lembrar que é homônimo de uma ilustre marca de charutos cubanos. Em O Maior Órgão do Mundo divaga sobre a pele e as agressões que ela sofre no mundo moderno. Em Masturbação, bem… E, em Pipoca, revela-se um connaisseur que não tolera o uso de microondas no preparo da iguaria – indispensável companheira de quem está em casa e vê filmes em DVD. Falando nisso, Rubem Fonseca, que já teve vários dos seus livros transformados em filmes, confessa-se um cineasta frustrado. Ainda está em tempo de começar.

(Estadão, Cultura, 11/11/07)

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