O Mundo Imaginário do Dr. Parnassus
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O Mundo Imaginário do Dr. Parnassus

Luiz Zanin Oricchio

07 de maio de 2010 | 14h08

parnasso

 

O Mundo Imaginário do Doutor Parnassus chega marcado por uma trágica contingência – a morte, em plena filmagem, de um dos seus protagonistas, o ator Heath Ledger. Como o show tem de continuar, o diretor Terry Gilliam providenciou uma série de nobres substitutos para as cenas que ficaram faltando – Johnny Depp, Jude Law e Collin Farrell. O remendo compulsório até que não funciona mal, ainda mais se levando em conta de que essa fábula moral de Gilliam não contempla lá grande espaço para o realismo e exigências de verossimilhança.

De fato, quase tudo se passa na dimensão do fantástico, no qual um espelho dá passagem a essa espécie de universo paralelo onde os desejos podem ser satisfeitos. Mundo também no qual o pacto com o diabo garante vida eterna ao personagem-título. Esse Doutor Parnassus, vivido por Christopher Plummer, é dono de um pequeno teatro ambulante e viaja em companhia de sua filha (Lily Cole) e ajudantes. Tem um segredo, que depois será revelado, e vê-se tentado a fazer constantes apostas com o diabo, um certo Mr. Nick (Tom Waits).

Com essa trama, não falta espaço para a imaginação visual delirante de Gilliam, ex-integrante do grupo Monty Python. E, de certa forma, sua imaginação será responsável por algumas das melhores cenas do filme, que se passam justamente atrás do espelho, onde o personagem Tony (vivido por Ledger e seus substitutos) conduz as pessoas que desejam viver a experiência de se encontrar de fato consigo mesmas, ou seja, com a região de luz e sombras que vive em cada um de nós.

Nessa viagem, Gilliam não economiza em visual lisérgico, que não deixa de ter sua beleza e impacto poético em algumas sequências. Claro que, como toda visão onírica continuada, esta também cansa. Como se o espectador ficasse fatigado com o excesso de truques que o diretor parece ter à disposição para enriquecer e expor sua fábula. Gilliam também não poupa no aspecto que seus filmes apresentam de mais cansativo – um ritmo febril de acidentes, tombos e encontrões entre personagens, como se o universo conspirasse para que nenhuma ação pudesse ser completada de modo suave ou natural. É um diálogo com o pastelão, que nem sempre soa orgânico ou natural.

Enfim, é uma estética do excesso, que tem lá seus fãs. E, por sorte, Gilliam consegue dosar tanto movimento frenético com alguns pontos de repouso, justamente os diálogos entre Parnassus e Mr. Nick. São os momentos fáusticos do filme – aqueles em que o pacto com o diabo é discutido e reajustado. Essas cenas beneficiam-se da presença de Plummer e de Tom Waits, de seu natural já meio mefistofélico. Por outro lado, parece bastante artificial a introdução da máfia russa no delírio visual e cognitivo de Gilliam.

Desse filme de tantos acertos e desacertos, sai-se com a impressão de que algo ficou por fazer. E esse déficit não se deve somente à desaparição de Heath Ledger.

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