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O modelo Neymar *

Luiz Zanin Oricchio

01 de maio de 2012 | 12h57

Amigos, não vou me deter muito no jogo entre São Paulo e Santos porque outros companheiros já o fizeram e com muito mais competência.

Gostaria apenas de sugerir que esta partida teve caráter bastante simbólico para o que estamos buscando no futebol brasileiro. Ficou muito claro que o craque é que faz a diferença e ele hoje atende pelo nome de Neymar. Não precisamos queimar neurônios para reencontrar a via natural do futebol brasileiro; basta apostar nos craques, em quem sabe tratar bem a bola.

Inútil dizer que não se encontra um Neymar em qualquer esquina. Ele é único, e, para quem gosta de comparações, já é, na minha opinião, o maior jogador do Santos depois de Pelé. Portanto, é único, joia rara, caso excepcional.

Mas também é claro que um futebol digno da tradição do brasileiro terá de apostar todas as suas fichas em jogadores que, se não forem como Neymar, pelo menos se inspirem nos mesmos princípios. Isto é, na arte, magia, improviso, trato amigável com a bola, invenção. Fora disso tudo somos iguais aos outros. Ou piores. Por que não investir justamente naquilo que nos diferencia?

Isso exige a coisa mais difícil do mundo, a mudança de mentalidade. Precisamos parar de imitar modelos (dialogar e trocar influências é outro papo) e ter pressa demais com resultados. Precisamos investir numa filosofia de jogo (e de vida) e levá-la até o fim.

Só que para isso é preciso ter convicção de que estamos no caminho certo. Por exemplo, o Barcelona agora é nada porque perdeu o Campeonato Espanhol e a Champions em uma semana? O nosso “modelo” agora deverá ser o Chelsea, por exemplo? É preciso lutar contra o automatismo de se aliar imediatamente ao vencedor, e mimetizá-lo sem qualquer senso crítico.

Mesmo porque a solução está aqui em casa mesmo, no nosso quintal, como foi visto domingo no Morumbi e em inúmeras outras ocasiões. O chamado futebol arte triunfa, pode vencer, como venceu na semifinal do Paulistão e em inúmeras outras ocasiões ao longo da nossa história. Estão aí os grandes times e as melhores seleções brasileiras de todos os tempos para comprovar. Pode perder também? Pode. Jogar bonito não é sinônimo de vitória. Jogar feio também não. É apenas uma filosofia de jogo, e leva em conta características brasileiras que se foram se depurando pela tradição.

Claro que a CBF não vai fazer isso porque se ocupa basicamente de politicagem e manutenção do poder. Mas deveria bancar uma grande discussão da qual participassem técnicos, jogadores, ex-atletas, dirigentes, cronistas esportivos e intelectuais (sim senhor, intelectuais, por que não?). O tema: que rumo tomar para que o futebol brasileiro readquira o antigo encanto, aquele que o fez vencedor, o projetou para o mundo e o tornou invejado por outros países? Se jogadores como Neymar provam que o futebol arte é vencedor por que nossos treinadores têm tanto preconceito contra ele?

* Coluna Boleiros, publicada no Caderno de Esportes do Estadão

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