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O mito fundador da América

Luiz Zanin Oricchio

18 de agosto de 2010 | 12h58

Em seu artigo “O western ou o cinema americano por excelência”, o grande crítico francês André Bazin, fundador da revista Cahiers du Cinéma, empresta status de mito às aventuras no Velho Oeste. Dignifica o gênero e afirma que “o western nasce do encontro entre uma mitologia e um modo de expressão”. A saga da conquista do Oeste já existia na literatura e no folclore antes do cinema. Mas é com o cinema que encontra sua forma exemplar e assim expressa à perfeição o mito formador da grande nação americana.

O que diria Bazin do western spaghetti, essa paródia tão sedutora, mas que pode encontrar resistência entre puristas? Jamais saberemos. Bazin, que chamado o faroeste de a “nossa Odisséia”, morreu em 1958, muito antes de Sergio Leone pensar nessa reciclagem de gênero, o seu grande ovo de Colombo. Antes, Leone havia dirigido épicos sobre os últimos dias de Pompéia e o Colosso de Rhodes, quando então decidiu transplantar seu estilo barroco para o gênero americano por excelência, nas palavras de Bazin.

Descobriu um ator coadjuvante em uma série de TV e o convidou para protagonista do homem sem nome de Um Punhado de Dólares. Nascia Clint Eastwood. Leone não foi a Monument Valley, o templo de Ford, mas encontrou na região árida de Almeria, na Espanha, simulacro bastante aceitável da fronteira entre México e Estados Unidos. E o resto é história, levada ao limite no mais ambicioso entre todos os spaghetti, que é Era uma Vez no Oeste, com grande elenco (Claudia Cardinale, Henry Fonda, Charles Bronson) e tentativa de desmitificar de vez o velho faroeste, colocando em evidência a cobiça como elemento principal na conquista de novos territórios.

Um norte-americano, alguém enraizado no mito fundador do seu país, se reconheceria no subgênero fundado por Leone? Nada mais duvidoso. Tarantino, já sabemos, é fã incondicional dos faroestes spaghetti. Aprendeu e deliciou-se com eles e os incorporou à sua própria estética. Quentin adora misturas, faz parte de sua visão de mundo. Mas uma crítica importante como Pauline Kael não se impressiona tanto com um filme como Três Homens em Conflito, o predileto de Tarantino. Ela confessa que todo o paroxismo de Leone pode de fato impressionar – “a mudança de escala chega a ser fascinante”. Mas conclui que “Esse western, passado na época da Guerra Civil Americana, mas rodado na Espanha, parece mais estrangeiro aos americanos que um filme italiano comum.” Pode ser. E também pode se dar que a estranheza faça o encanto final deste e de outros filmes do gênero.

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