O mito dos ‘velhinhos’ de Hollywood
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O mito dos ‘velhinhos’ de Hollywood

Uma análise dos resultados mostra que os tais velhinhos conservadores são mais avançados que a comissão do Minc que escolheu 'O Pequeno Segredo' para representar o Brasil

Luiz Zanin Oricchio

07 de novembro de 2016 | 10h31

 

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Se o Brasil tivesse a fórmula para vencer o Oscar já teria faturado umas três ou quatro estatuetas. Continua “invicto” até hoje, como se sabe. E, volta e meia, as comissões que escolhem o representante para disputar a indicação, exumam os mitos de sempre: “Precisamos pensar com a cabeça da Academia. Não adiante eleger o melhor filme; tem de ser o filme de que eles gostem. E os ‘velhinhos’ da Academia gostam de histórias edificantes, temas ligados ao Holocausto, sem grandes ousadias formais, enfim, obras de mediana qualidade”.

Até agora, essa sabedoria dos selecionadores não tem dado qualquer resultado. Mesmo porque não é nada fácil adivinhar o que se passa na cabeça dos outros, ainda mais na cabeça de um coletivo de pessoas, como é o caso da Academia. Não se tem ideia precisa da faixa etária deles e, no entanto, continua-se a chamá-los de “velhinhos”, com uma certa condescendência. Aposta-se na predileção do grupo pelo Holocausto, hipótese fundada na composição da indústria do cinema em Hollywood, embora esta tenha mudados de mãos. Mas o pior de tudo é supor um conservadorismo estético, nem sempre amparado pelos dados da realidade.

Não precisamos ir muito longe no tempo, quando Bergman ganhava o Oscar com A Fonte da Donzela (1960) ou Fellini com 8 ½ (1964), para desmontar essa suposição de conservadorismo estético. Basta olhar para os cinco últimos prêmios: A Separação, do Irã (2012), Amor, da Áustria, (2013), A Grande Beleza, da Itália (2014), Ida, da Polônia (2015), e O Filho de Saul, da Hungria (2016).

Nenhum deles é piegas, ameno ou desprovido de qualidades cinematográficas. Pelo contrário. Os dois últimos, de fato vinculados ao tema do Holocausto, são duríssimos, em especial O Filho de Saul, que também trabalha com uma opção estética bastante arriscada e heterodoxa.

A Separação, de Asghar Farhadi, é de uma precisão de roteiro invejável. Amor, de Michael Haneke, trata da eutanásia sem qualquer concessão e não tem medo de chocar o espectador. A Grande Beleza, de Paolo Sorrentino, retoma a grande visão felliniana da decadência e não se presta a qualquer vislumbre de lugar-comum.
De modo geral, Brasil não fez feio em suas últimas cinco indicações: Tropa de Elite 2 (2012), O Palhaço (2013), O Som ao Redor (2014), Hoje Eu Quero Voltar Sozinho (2015) e Que Horas Ela Volta? (2016). Em particular, nas escolhas para 2014 e 2016, elegeu o que o País tinha de melhor,

Neste ano a seleção foi atípica. Por razões políticas, havia um candidato a não ser eleito, Aquarius, de Kléber Mendonça. Com o veto branco, em seu lugar entrou o bem-intencionado porém fraco e piegas O Pequeno Segredo, de David Schürmann. Esperemos pela complacência dos “velhinhos conservadores da Academia”, que têm se revelado mais ousados e atentos às questões cinematográficas que esta comissão do MinC.

 

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