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O mito da indolência nacional

Luiz Zanin Oricchio

19 de fevereiro de 2007 | 10h53

Em seu documentário O Olhar Estrangeiro, Lucia Murat registra vários preconceitos e estereótipos associados ao Brasil e difundidos pelo cinema de outros países. Usa-se e abusa-se do Brasil sensual, com suas mulheres fáceis e semidespidas. Fala-se da depredação da Amazônia. E, claro, não podem faltar imagens e declarações sobre a suposta aversão nacional ao trabalho.

Como mostra em seu dossiê a Revista de História da Biblioteca Nacional esse não é um clichê recente, inventado por Hollywood e congêneres. Data dos tempos da colonização. O próprio padre Antonio Vieira (1608-1697) registra que o trabalho cotidiano não fazia parte da cultura dos indígenas brasileiros. Com toda a sua genialidade, Vieira não era capaz de evitar o eurocentrismo (termo que inexistia em sua época), que supõe como universais os valores europeus, tais como religião, direito, poder, propriedade, cultura e trabalho.

A idéia era reforçada pela associação entre o paraíso perdido dos católicos e o suposto paraíso tropical recém-descoberto pelos portugueses. Adão foi expulso e condenado a ganhar a vida com o suor do rosto, aqui existiria algo de semelhante com essa relação idílica dos nativos com a natureza e com o outro. Vivia-se sem roupa, sem religião aparente, sem a determinação severa do mundo do trabalho e da necessidade. Tudo muito bonito, mas que se transformava em estorvo quando o desafio era convencer esses bons selvagens a mourejar em prol da metrópole.

No belo artigo, Luís Fernando Pereira esclarece que a relação dos índios com o trabalho era diferente, e isso escapava ao olhar europeu. As sociedades indígenas se organizam de modo que os resultados do trabalho garantam qualidade de vida satisfatória para o grupo e não apenas para os indivíduos isolados. A relação com parentes é central e, em função delas, se estrutura a dinâmica do trabalho. ‘Por meio do trabalho, os membros do grupo se juntam e constroem relações. Ao contrário do Ocidente, onde a máxima reza que o trabalho deve ser afastado do mundo familiar, entre os ameríndios o trabalho constitui essa vida familiar.’ Essa dinâmica diferente tornava o trabalho indígena invisível aos europeus.

Outros artigos, como o de William Reis Meirelles, falam de figuras da ‘indolência’ nacional, de Jeca Tatu ao personagem de Mazzaropi, passando pelo emblemático Macunaíma, criado por Mario de Andrade e imortalizado por Grande Otelo no filme de Joaquim Pedro de Andrade. O Brasil despendeu muito esforço para falar tão bem da preguiça.

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