O Mestre
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O Mestre

Luiz Zanin Oricchio

28 de janeiro de 2013 | 10h14

 

Nas primeiras cenas, um grupo de fuzileiros navais aguarda a volta para casa. A guerra terminou, o momento é de ócio. Não há muito o que fazer, a não ser beber água de coco, ou fabricar um simulacro de mulher com areia da praia. Entre eles está Freddie (Joaquin Phoenix), que simula sexo com a mulher de areia e depois se masturba diante do mar. Em O Mestre, de Paul Thomas Anderson (PTA), Freddie será exemplo do desajustado do pós-guerra. Aquele que volta para casa e não encontra o seu lugar. Ou porque usurparam esse lugar ou porque ele nunca foi seu. Aquele que bebe demais e terá dificuldade em encontrar um veículo para escoar sua violência.

O outro personagem será Lancaster Dodd (Philip Seymour Hoffman), um mix de hipnotizador, picareta, sábio e cientista. Os dois se conhecem quando Freddie embarca, bêbado e clandestino, num barco de Lancaster que funciona como uma espécie de igreja flutuante. O fascínio é mútuo. Freddie vê alguma coisa naquele ser superior, que parece ler a mente das pessoas. Lancaster também vê algo em Freddie, talvez uma energia bruta, que precisa ser dirigida para alguma coisa – e assim o será. Essa sedução mútua entre guru e discípulo  será a fonte dessa energia cavada pelo filme.

Uma estranha energia, diga-se. Sentimos sua vibração, mas, ao mesmo tempo, nos perguntamos como o diretor se dispõe a administrá-la. Lancaster Dodd é claramente inspirado em L. Ron Hubbard, o fundador da cientologia, a crença semi-racional, semi-esotérica adotada por alguns astros de Hollywood (Tom Cruise e John Travolta, entre eles). Mas é claro que O Mestre não se propõe ser uma cinebiografia desse personagem. Apenas o toma como pretexto. Também parece claro que o filme não se resume a um comentário sobre os problemas de adaptação social de ex-soldados, embora fale disso também. O tema é melhor descrito como o encontro (e desencontro) entre dois solitários radicais. Freddie não ocupa lugar nenhum, nem mesmo quando se torna cão de guarda da nova crença (definida como A Causa). Está fora do seu centro hipotético. Lancaster é outro solitário. Apesar do séquito de seguidores, sente-se nele algo como uma dúvida atroz acerca de si mesmo. O homem que duvida de si é um solitário. Às vezes suspeitamos que a figura forte da seita não seja ele, mas a esposa, Amy Adams, no papel de uma Lady Macbeth um tanto esotérica, mas com os pés bem fincados no chão.

Paul Thomas Anderson filma com uma técnica que mistura 35mm e 70 mm, o que dá à imagem aparência grandiosa e também um tanto irreal. As imagens são intensas. No entanto, provocam às vezes a sensação de que estamos diante de um sonho. Ou imersos nele, dependendo do quanto o filme nos envolva. Talvez seja a linguagem da irrealidade sentida ao fim de uma guerra extenuante. O que era dolorosamente excepcional acabou e é preciso retomar a vida tal como ela é, com sua segurança, suas limitações e exigências. Mas, pelo menos durante algum tempo, quem sai de uma situação excepcional e ingressa na normalidade tem aquela “sensação de não estar de todo”, de que dizia o escritor Julio Cortázar a respeito da experiência do fantástico. É como um estranho trabalho de luto em relação à excepcionalidade da guerra. Nada no filme é irreal de maneira explícita; mas a sensação de vê-lo, é.

Esse algo indefinido, essa fissura entre as ideias aparentes do filme e a linguagem usada para expressá-lo, só fazem aumentar o fascínio do espectador. Ou, pelo menos, o tipo de espectador, desafiado por propostas menos lineares e evidentes. Em estado latente, o mal-estar indefinido, prestes a explodir, como no personagem de Joaquin Phoenix (magnífico em sua expressividade física). Ou Lancaster, em sua insegura sapiência feita de um bricolage de conhecimentos. São dois tipos excêntricos em uma sociedade “normal”. No entanto, expressam à perfeição a patologia dessa normalidade.

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