O menino Thomaz Farkas (1924-2011)
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O menino Thomaz Farkas (1924-2011)

Luiz Zanin Oricchio

25 de março de 2011 | 20h39

Soube agora, por telefonema do nosso amigo comum Guido Araújo, da morte de Thomaz Farkas. O dever profissional obriga que eu escreva alguma coisa, quando a vontade seria apenas calar e sentir.

Farkas foi um dos pioneiros da moderna fotografia no Brasil. Tem vários livros publicados e realizou diversas exposições. A mais recente, faz pouco mais de um mês. Todos o víamos meio enfraquecido pela idade e pela doença, mas o Thomaz era daquelas pessoas que pareciam eternas, nunca iriam desaparecer.

Quem fala em Thomas fala também na Caravana Farkas, a série de documentários que produziu e que mapearam o País em plena época da ditadura militar. Cinco desses curtas e médias-metragens foram reunidos e formaram o longa Brasil Verdade, um título fundamental do nosso cinema.

Enfim, a importância de Farkas foi decisiva para a fotografia e o cinema modernos no Brasil. Tudo isso está registrado na história e nas imagens que captou ao longo dos anos com sua inseparável Leica. Lembro das inúmeras vezes que nos encontramos nos últimos anos, já em uso as máquinas digitais e Thomaz continuava sempre fiel à película e à sua Leica, que ele usava sem flash. Nós, com nossas maquininhas descartáveis éramos apenas tiradores de retratos. Ele era “o” fotógrafo.

O engraçado é que, ambos moradores de São Paulo, fomos nos conhecer pessoalmente em Salvador, muitos anos atrás, numa das Jornadas de Cinema dirigidas pelo Guido. Farkas era do time permanente da Jornada. Ia lá, todo ano, com sua mulher, Marli. Rô, minha mulher, já os conhecia e eu entrei para o grupo. Ficamos muito amigos. Nos víamos também em São Paulo, mas, engraçado, as melhores lembranças de Thomaz são de Salvador. Uma vez, ciceroneados pelo nosso amigo João Carlos Sampaio, fomos a um jogo do Vitória contra o Flamengo no Barradão. Antes da partida, tínhamos ido comer na Dadá e tomamos juntos umas cachacinhas baianas. O Vitória ganhou por 1 a 0 e foi uma das tardes de domingo mais agradáveis que passamos na cidade da Bahia.

As lembranças que eu tenho do Thomaz são dessa natureza. De leveza, alegria de viver, uma sensação de espanto e curiosidade por tudo o que era novo. Thomaz tinha alma de menino. Foi-se, aos 86 anos. Que descanse, pois viveu uma bela e intensa vida.

Abaixo, transcrevo uma matéria que fiz com Thomaz há algum tempo para o Estadão.

THOMAS FARKAS. PROFISSÃO: BRASILEIRO

Não existe nenhuma incoerência em dizer que um húngaro nascido em Budapeste é o mais brasileiro dos brasileiros. Não, se você estiver se referindo a Thomaz Farkas, fotógrafo, produtor, cineasta, que hoje às 19 horas recebe homenagem da Cinemateca Brasileira (Largo Senador Raul Cardoso, 207), instituição da qual é ex-presidente e membro do Conselho. Na ocasião será lançada a caixa, com sete DVDs, do Projeto Thomaz Farkas (Vídeo Filmes/Cinemateca), e exibido o curta Pixinguinha e a Velha Guarda do Samba, de autoria do homenageado.

Vendo-os, você vai entender o sentido da frase que abre essa matéria. Quais são os temas desses filmes? O cangaço, a migração, o futebol, a escola de samba, os trabalhadores do Nordeste, a música, a religiosidade, as cantorias e salas de milagres, a seca e o esplendor artístico dos artesãos. Enfim, um Brasil que, na época em que esses filmes começaram a ser produzidos, e muitas vezes fotografados por Farkas, era quase desconhecido no chamado Sul Maravilha. Na época, mostrar esse outro Brasil, divulgá-lo para quem não o conhecia, era tarefa artística, mas também política.

Impulso. Farkas deu esse impulso ao movimento documentário em dois movimentos: no primeiro, com os quatro médias-metragens depois reunidos no formato de longa com o título Brasil Verdade (1965): Memória do Cangaço, de Paulo Gil Soares, Subterrâneos do Futebol, de Maurice Capovilla, Nossa Escola de Samba, de Manuel Horacio Giménez, e Viramundo, de Geraldo Sarno. Em seguida, entre 1969 e 1970, Farkas conduziu pelo interior do País técnicos e jovens diretores para registrar o que viam. Dessa iniciativa, resultaram os 19 curtas e médias da chamada Caravana Farkas.

Além dos quatro documentários de Brasil Verdade, a caixa traz filmes assinados por nomes como Sérgio Muniz (A Cuíca), Eduardo Escorel (Visão de Juazeiro), Guido Araújo (A Morte das Velas do Recôncavo), Roberto Duarte (Ensaio), Miguel Rio Branco (Trio Elétrico), além das obras do próprio Farkas (Hermeto, Campeão, Paraíso Juarez, Todomundo e Pixinguinha e a Velha Guarda do Samba). Com suas variantes de tema e estilo, o conjunto é um mergulho no Brasil profundo.

Os mais conhecidos são mesmo os quatro que foram agrupados para formar o longa-metragem de 1968 Brasil Verdade. Esses ganharam razoável fortuna crítica, parte pelo fato de terem sido reunidos em formato comercial, parte pela própria qualidade.

No entanto, Projeto Farkas merece a atenção geral do espectador em seu todo. Não apenas pelo valor intrínseco das obras, como pelo documento que representa um certo tipo de olhar sobre a realidade nacional. Não que todos esses curtas, médias e até mesmo um longa como Andiamo in”merica, de Sergio Muniz, possam ser agrupados sob uma linha estilística única. Não. São realizadores diferentes e, por mais que os unificassem preocupações em comum, desenvolveram estilos particulares, embora muitos tenham sido agrupados pelo rótulo de “cinema direto” ou “cinema verdade”. Os filmes vão do registro direto, às vezes comentado por uma voz off que unifica e dá sentido às imagens, ao mero registro amoroso das realizações populares no campo da arte. Além disso, as obras se distribuem num arco relativamente longo de tempo. Vão desde os anos engajados em meados da década de 1960 até a atualidade – em especial nas obras do próprio Thomaz Farkas.

Ainda assim, contemplados em toda a sua diversidade, pode-se notar um sabor de época predominante. Em especial nos primeiros títulos da série, que flagram um Brasil “autêntico”, mas em plena transformação. De fato, alguns desses filmes vão ao sertão para registrar não apenas a tradição, mas a chegada de uma modernidade que a ameaça. São obras, muitas vezes, de fricção e não se detêm no imobilismo museológico do registro folclórico.

UNE. Mesmo porque esse tipo de prospecção se inspirava no modelo de busca do “nacional” e da interlocução direta com o povo, segundo as ideias propagadas pelos Centros Populares de Cultura da UNE. Daí a procura, consciente ou não, das matrizes dinâmicas da cultura nacional, buscadas lá onde elas se encontravam: no sertão, nas favelas, nos estádios de futebol, na escola de samba.

Eram essas também as fontes do próprio Cinema Novo, quando fazia ficção. Basta lembrar onde se ambientam os principais filmes de Nelson Pereira dos Santos (Rio 40 Graus), Glauber Rocha (Deus e o Diabo na Terra do Sol) e Ruy Guerra (Os Fuzis). Esses filmes produzidos por Farkas têm também a virtude de nos lembrar como o melhor cinema de ficção que se fez no País dialogou de forma íntima e contínua com o documentário.

QUEM É

Thomaz Farkas
Fotógrafo, produtor e documentarista

CV: Thomaz nasceu em Budapeste em 1924 e veio para o Brasil com 6 anos. É fotógrafo premiado e registrou imagens preciosas com sua Leica. Produziu os o longa Brasil Verdade e os filmes da Caravana Farkas.

DESTAQUES
Subterrâneos do futebol
Maurice Capovilla analisa os bastidores do esporte mais popular do País. Fiel à época, procura destacar o caráter de alienação da torcida, que encontraria na paixão por seu clube preferido válvula de escape para as tensões da sociedade de classes. Mas o filme não esconde o gosto pelo futebol do próprio realizador.

Viramundo
Geraldo Sarno registra a migração nordestina em São Paulo, seus problemas de adaptação à cidade grande e a questão da religiosidade como escape.

Memória do Cangaço
Paulo Gil Soares, assistente de Glauber Rocha em Deus e o Diabo, entrevista o coronel José Rufino, que inspirou o personagem Antonio das Mortes.

Depoimentos de quem filmou com ele

Geraldo Sarno
“Thomaz foi o meu primeiro parceiro em cinema. Parceiro não apenas como produtor atento, preocupado com o andamento do trabalho, mas sobretudo como fotógrafo. Com Viramundo teve início essa parceira que prosseguiu até 1967 com a viagem que fizemos por vários estados do Nordeste. Em vários filmes, Thomaz carregou o chassi com a película virgem, mediu a luz e empunhou a câmera que documentou esses momentos que a magia do cinema permite compartilhar com todos os espectadores.”

Maurice Capovilla
“Farkas foi o mecenas e o arquiteto de um novo cinema documentário que nasce em São Paulo no início dos anos 60, a partir de duas vertentes: a que vem do cinema clássico de Dziga Vertov até Jean Rouch e, por outro lado, a vertente principal, que nasce em 1958 na Escola de Santa Fé, com Tiré Dié, obra de Fernando Birri. Sua figura de mestre da arte fotográfica e aprendiz da realidade por descobrir nos serviu de modelo para enfocar um mundo que estava em nossa volta, oculto pelo véu dos cinejornais institucionais.”

Sérgio Muniz
“Como fotógrafo, ainda que tardiamente, Thomaz já foi reconhecido. Como produtor, cabe destacar a oportunidade sem limites que deu a jovens iniciantes como Sarno, Capovilla, Paulo Gil e eu. Ele nos deu total independência na escolha dos temas, no acabamento dos filmes e sua montagem. Colocou a mão no próprio bolso, numa época sem leis de incentivo. E teve a iniciativa, mais uma vez com seu próprio dinheiro, de transferir todos os documentários para suporte magnético, primeiro analógico, depois digital.”

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