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O matador e a hora da verdade

Luiz Zanin Oricchio

27 de janeiro de 2009 | 13h53

Tem um samba de Nei Lopes com versos que eu adoro: “No tempo em que Don Don jogava no Andaraí/Nossa vida era mais simples de viver/Não tinha tanto miserê, não tinha tanto tititi/No tempo em que Don Don jogava no Andaraí”. O samba ironiza o tempo pretensioso em que vivemos, tudo complicado, pomposo, cheio de eufemismos, sem qualquer senso de humor. Compartilho da filosofia de vida de Nei Lopes e lembro que, quando Osvaldo Brandão tinha alguma posição carente em seu time, dizia: “Preciso de um 5, está faltando um 3; quero um 9 no ataque”.

Tempo em que os times eram escalados de 1 a 11, do goleiro ao ponta-esquerda e, pelos números, sabia-se em que posição o cidadão atuava: 2 era o lateral-direito, 3, o central e daí para a frente. Há exceções, a mais notória sendo a do Santos, que dá a 4 para o lateral-direito, a 2 para o central e a 3 para o lateral-esquerdo. É apenas uma variação que, pelo uso, virou tradição. Não influi e nem dificulta. Daí para a frente é tudo igual: o 7 e o 11 eram os pontas, o camisa 10, o dono do time e o 9, o matador.

Como macaqueamos os europeus (faz parte da tradição, também), alguns dos nossos clubes passaram a adotar camisas de numeração exótica para os boleiros. Kléber Pereira, em certa época, quis abandonar a 9 e trocá-la pela 23 de Michael Jordan, de quem se diz admirador. Acho que alguma alma caridosa o lembrou que Jordan é jogador de basquete e que a 9 do Santos foi vestida por gente como Pagão, Coutinho e Toninho Guerreiro. Enfim, a nossa época é assim mesmo, cheia de onda, palavrório difícil e vazio, jargão de “especialistas” e estrelismos. Querem o quê? Se tecnocratas reinam em qualquer setor (veja à sua volta, leitor), por que o futebol ficaria incólume?

Por isso mesmo faz bem à alma quando a simplicidade do futebol aflora de repente, zombando dos mauricinhos de ocasião. Sim, amigos, porque o que acontece neste começo de Paulistão é algo que remonta à pré-história dessa nobre arte, aos tempos de Don Don e do glorioso Andaraí, clube da Zona Norte carioca extinto nos anos 60, quando o América comprou seu campo. E o que acontece? Acontece que neste começo de campeonato brilham os matadores, o camisa 9, o velho e bom centroavante.

Sim, o centroavante, aquele profissional de carreira, incumbido (apenas) de balançar as redes do adversário. Aquele que não marca nem passa, não joga nem bem e nem mal; ele faz gols ou deixa de fazê-los. Quantos fez? Quantos perdeu? Quando o balanço é favorável, marca mais do que perde, o cidadão é chamado de matador, palavra que traça um paralelo entre o futebol e a tourada. O matador é aquele que não treme diante daquilo que os espanhóis chamam de “la hora de la verdad”, quando a diferença entre a glória e a tragédia é de milímetros e frações de segundo. O matador boleiro é aquele que não treme na pequena área e, mesmo quando acossado por goleiro e beques furiosos como touros, mantém a frieza na alma para colocar a menina lá dentro.

Dizem que essa figura está ultrapassada nos manuais da moderna tática e só times antiquados manteriam um jogador nessa posição. Pois bem, aí estão Kléber Pereira, Washington, Keirrison e, sim, Pedrão como os principais personagens deste início de campeonato. São eles que fazem a diferença para seus times. Como nos tempos de Don Don. Que, aliás, era zagueiro.

(Coluna Boleiros, 27/1/09)

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