O Mar ao Amanhecer
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O Mar ao Amanhecer

Luiz Zanin Oricchio

08 de novembro de 2013 | 17h14

Outra estreia desta sexta é O Mar ao Amanhecer, de Volker Schlondorff.

Confesso que, quando vi o título, pensei em algo mais romântico. Mas, na verdade, o filme se refere a um episódio da 2ª Guerra Mundial, aliás muito triste e pouco propenso a imagens poéticas.

A história, real, foi a seguinte. França ocupada, três jovens de Nantes, membros da Resistência, matam um oficial alemão. Em represália, Hitler ordena que nada menos de 150 franceses sejam fuzilados.

Boa parte do filme resume-se nas negociações para a elaboração da lista fatal. Em Paris, o comandante da ocupação, Von Stulpnagel, tenta diminuir as exigências do Füher. Em Nantes, o oficial Ernest Jünger anota, hora a hora, o desenrolar dos acontecimentos. O sub-prefeito francês, fica com o duro encargo de escolher os nomes dos condenados. Os “candidatos” são os prisioneiros franceses, incluindo-se judeus, comunistas, estudantes revoltosos e todo o tipo de gente considerada indesejável pelos ocupantes e pelos próprios franceses colaboracionistas.

Entre eles, Guy Môquet, jovem de 17 anos e hoje considerado um herói nacional francês. No filme, ele é interpretado por Léo-Paul Salmain.

Tudo se passa entre o momento do atentado dos jovens a Nantes e a execução da ordem de represália, um fuzilamento detalhadamente documentado.

Schlöndorff não é conhecido pela leveza. No entanto, é denso e competente. Mantém a tensão da história real transcrita em filme e conserva a credibilidade histórica. Os ocupantes falam em alemão entre eles. Os franceses, em francês. Fosse filme americano, todos falariam inglês com sotaque.

As cenas de maior emoção são quando os condenados recebem papel e lápis para escrever suas cartas de despedida às famílias. A de Guy Môquet se tornou clássica dessa tragédia insensata que é a guerra.

Abaixo, a carta de Môquet, que não ouso traduzir. É de cortar o coração.

Voici le texte de la dernière lettre du jeune résistant communiste Guy Môquet, fusillé par les Allemands le 22 octobre 1941.

“Ma petite maman chérie,
mon tout petit frère adoré,
mon petit papa aimé,
Je vais mourir ! Ce que je vous demande, toi, en particulier ma petite maman, c’est d’être courageuse. Je le suis et je veux l’être autant que ceux qui sont passés avant moi. Certes, j’aurais voulu vivre. Mais ce que je souhaite de tout mon cœur, c’est que ma mort serve à quelque chose. Je n’ai pas eu le temps d’embrasser Jean. J’ai embrassé mes deux frères Roger et Rino. Quant au véritable je ne peux le faire hélas !
J’espère que toutes mes affaires te seront renvoyées elles pourront servir à Serge, qui, je l’escompte, sera fier de les porter un jour. A toi petit papa, si je t’ai fait ainsi qu’à ma petite maman, bien des peines, je te salue une dernière fois. Sache que j’ai fait de mon mieux pour suivre la voie que tu m’as tracée.
Un dernier adieu à tous mes amis, à mon frère que j’aime beaucoup. Qu’il étudie bien pour être plus tard un homme.
17 ans et demi, ma vie a été courte, je n’ai aucun regret, si ce n’est de vous quitter tous. Je vais mourir avec Tintin, Michels. Maman, ce que je te demande, ce que je veux que tu me promettes, c’est d’être courageuse et de surmonter ta peine.
Je ne peux pas en mettre davantage. Je vous quitte tous, toutes, toi maman, Serge, papa, je vous embrasse de tout mon cœur d’enfant. Courage !
Votre Guy qui vous aime”

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