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O manguebeat deságua no árido movie *

Luiz Zanin Oricchio

05 de novembro de 2014 | 12h29

De certa forma, Baile Perfumado é o filme-manifesto do árido movie. Resgata personagens tradicionais do Nordeste (o fotógrafo Benjamin Abrahão, Padre Cícero e o cangaceiro Lampião), conta uma história da sua terra, porém em vertiginosa linguagem moderna, dialogando com o pop, o rock e insinuando, pelo ritmo e intensidade, uma linha de continuidade com o mangue beat, a renovação musical do Recife.

O filme é ponto de encontro de vários talentos da nova geração, a começar pelos diretores Lírio Ferreira e Paulo Caldas, mas também atores como o paraibano Luiz Carlos Vasconcellos e o paulista Duda Mamberti, músicos como Siba, o fotógrafo Feijão, o roteirista Hilton Lacerda.

O filme foi (corretamente) visto como sopro de renovação do cinema brasileiro e ganhou o Festival de Brasília de 1997, fazendo de todos os que se envolveram em sua produção nomes nacionais. Além disso, a partir desse estalo criativo, outros nomes ligados ao “movimento” (vamos chamá-lo assim) tornaram-se conhecidos e referências por seu trabalho, como são os diretores Claudio Assis e Marcelo Gomes.

O grupo se forma a partir de relações de amizade e também de afinidades estéticas, numa época difícil para o cinema brasileiro, a do início da Retomada, após o desmanche da era Collor. Não se tratava apenas de uma crise de produção, econômica, portanto, mas também de criação. Naquele início dos anos 1990, o Brasil entrava, no tranco, na dança da globalização, com tudo o que isso comporta de impulso econômico e também de ameaça de diluição das culturas locais.

Esse grupo tinha como mentor intelectual o escritor Amin Stepple. Amin já havia escrito o roteiro do curta de Lírio Ferreira, That’s a Lero Lero, sobre a passagem mítica de Orson Welles pelo Recife. Circulava pelo grupo e é tido como o responsável pelo rótulo “árido movie”. Uma expressão de marketing, sem dúvida, de assimilação fácil e irmã gêmea de outra, já consagrada, o mangue beat. A soma de uma palavra brasileira e outra inglesa pontecializava o todo e dava bem ideia do que seria a essência do movimento – integração de elementos díspares, hibridação, assimilação antropofágica de contrários. Desse modo, a visita de Welles ao Brasil, em 1942, para fazer o inconcluso It’s All True, teria sido uma espécie de mito fundador, assim como, para a antropofagia de Oswald de Andrade, fora a devoração do bispo Sardinha pelos índios.

A cultura brasileira, ou parte dela, evolui dessa forma, pela assimilação do outro e digestão original, parindo o novo. Não por acaso, essa visita de Welles ao País (no contexto da política da boa vizinhança, de Roosevelt) tornou-se obsessão para um cineasta tão criativo quanto Rogério Sganzerla, que a ela dedicou vários filmes, até o final da vida. Ora, sabe-se, também, da influência de Sganzerla sobre os jovens cineastas brasileiros, incluindo os do Recife. E, desse modo, fecha-se o círculo.

No todo, a ideia de base, formulada no conceito (agora vamos chamá-lo desse jeito) de árido movie, era, não a negação da cultura ancestral pernambucana, mas sua reelaboração em bases contemporâneas. Por isso, o sertão é pop em Baile Perfumado. Por isso, o sertão é líquido e não esturricado. Por isso o filme começa com um plano-sequência fantástico, registrando a morte de Padre Cícero, enquanto palavras em árabe (não traduzidas) são recitadas. O filme, ao mostrar o cotidiano e as façanhas de Virgulino Ferreira, nos joga num registro lisérgico. Sem descartar a tradição, ele a coloca na crista da onda da modernidade.

Dessa inspiração, que incorpora o local e o tradicional, mas não os congela no folclórico, nascem outros filmes, como O Rap do Pequeno Príncipe, de Paulo Caldas, Cinema, Aspirinas e Urubus, de Marcelo Gomes, Amarelo Manga, de Claudio Assis, e outro filme-síntese, Árido Movie, de Lírio Ferreira. São eles que abrem caminho para o novíssimo cinema pernambucano, que tem em O Som ao Redor, de Kléber Mendonça Filho, seu ponto mais alto. Mas esta é outra história.

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