As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

O mais ingrato (e apaixonante) dos jogos

Luiz Zanin Oricchio

20 de julho de 2010 | 10h36

O futebol pode às vezes ser o mais ingrato dos jogos. Um time pode atacar, atacar, atacar, perder uma bola, sofrer um contra-ataque e perder a partida. Jogo ingrato. E por isso o amamos. Seremos masoquistas? Por que não nos dedicamos a esportes mais “justos”, que sempre premiam o melhor, o mais técnico, o que se esforçou mais durante a partida, o que criou melhores chances? Por gostarmos de sofrer? Não. Gostamos do futebol porque a sua imprevisibilidade o torna mais emocionante do que os outros. Gostamos porque pode contrariar tranquilamente a lógica da justiça e beneficiar aquele que menos merece. Cansamos de ver isso durante a Copa da África. E cansaremos de ver durante o Campeonato Brasileiro e em todas as disputas que virão pela frente.

Por exemplo: o Santos não jogou má partida diante do Fluminense. Ok: poderia ter sido mais incisivo, massacrante, decisivo, envolvente, como foi durante o seu esplendor, que aconteceu ao longo do Campeonato Paulista e da Copa do Brasil, quando criava mais de 20 oportunidades de gol por jogo e convertia algumas delas. Mesmo assim, sendo mais modesto, e tendo dificuldades diante da boa marcação proposta pelo time de Muricy, o Santos jogou bola e poderia perfeitamente ter saído vencedor. Não converteu as chances. Perdeu o jogo num belo contra-ataque, propiciado justamente pela falha do seu melhor jogador, Paulo Henrique Ganso, que perdeu a bola onde não devia e não podia perder. Assim é o futebol e assim o amamos, com seus defeitos e qualidades.

Ou seja: sempre é possível um time jogar bem e perder o jogo, como é possível, dentro de limites, jogar mal e sair vencedor. Dito isso, é claro que as equipes têm de dar o melhor de si (como dizem os boleiros) e jogar tão bem quanto for possível. Porque, apesar das incertezas do futebol, em geral (mas não necessariamente) quem joga melhor vence. O técnico, os jogadores ou mesmo a torcida não devem contar com esse aspecto um tanto lotérico do jogo da bola com os pés. Devem dar tudo para que o futebol se comporte segundo a lógica, embora nem sempre ele obedeça a essa suposta lógica dos homens. Ou talvez a sua lógica seja outra, insondável.

Pensando desse modo, não adianta Dorival Jr. repetir que o time está jogando bem e que esse é o Santos que ele quer ver em campo. Claro, declarações como essa têm seu valor psicológico, para não abater o grupo. Mas, entre quatro paredes, lá na intimidade do CT Rei Pelé, Dorival deve estar matutando sobre as razões da queda de produção do Santos. Não que os meninos estejam jogando mal; não é isso. O fato é que estão atuando abaixo do que já o fizeram. Ninguém os está comparando com outros craques. Eles estão sendo comparados consigo mesmos, e, dessa comparação, sai a pergunta que não quer calar: onde foi parar aquele futebol brilhante? Sumiu? Está apenas esperando a oportunidade para ressurgir? Neymar sucumbiu à própria máscara? Ganso ainda se ressente da artroscopia? Robinho voltou frustrado da Copa? Dorival tem até o dia 28 para responder a essas questões, quando joga a primeira e decisiva partida contra o Vitória pela Copa do Brasil. Não é uma partida: é todo o ano de 2010, com repercussões para 2011, que está em jogo. 

Em todo caso, para o torcedor santista, sobra o consolo: apesar da retomada pós-Copa muito negativa (dois jogos, duas derrotas), pelo menos o Santos não abandonou a sua filosofia de jogo. Continuou, contra Palmeiras e Fluminense, a ser aquele time ofensivo, que marca no campo inteiro, troca bem a bola e avança verticalmente rumo ao gol. Joga um futebol moderno que, nos melhores momentos, lembra o da Alemanha, a mais brilhante seleção da Copa, mas que, sabemos todos, não ganhou a competição. Não interessa. Cabe perseverar numa filosofia de jogo na qual se acredita e mostrou ser vencedora.

Se esse belo futebol santista irá voltar, não sabemos. Mas também não há motivos para que não volte. Se irá vencer é outra história, cujo desfecho deixamos aos “deuses do futebol” – essa ficção que inventamos para falar da imprevisibilidade desse esporte apaixonante.

 (Coluna Boleiros, 20/7/10)