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O ‘maio de 68’ continua muito bem na fita

Luiz Zanin Oricchio

13 de abril de 2008 | 07h25

Poucos dias antes de ser eleito, o atual presidente francês Nicolas Sarkozy disse que era preciso ‘enterrar o maio de 68′. A lembrança rebelde, segundo Sarko (como o chamam os franceses) faria mal ao país. Não é bem o que pensam seus conterrâneos. De acordo com enquete encomendada pela revista Le Nouvel Observateur, 74% dos pesquisados afirmaram que ’68 teve efeito positivo sobre a sociedade’. Distorção esquerdista dos entrevistados? Não parece: 60% das pessoas ouvidas se dizem de direita. E 65% dos que responderam ao questionário afirmam ter votado em Sarkozy nas eleições.

Esse balanço positivo dos acontecimentos de 40 anos atrás se traduz em alguns aspectos contemporâneos, que as pessoas ouvidas relacionam aos avanços produzidos pelo maio de 68 – a divisão mais justa de tarefas entre homens e mulheres vem em primeiro lugar. A seguir, o direito sindical, a sexualidade, as relações entre pais e filhos, os costumes. Sob influência do ‘mês rebelde’, a sociedade liberalizou-se.

E quais são as cenas que vêm espontaneamente à mente das pessoas? Em primeiríssimo lugar, os enfrentamentos de rua entre estudantes e a polícia. Depois, a Sorbonne ocupada e, em terceiro lugar, Daniel Cohn-Bendit diante de um policial.

Aliás, Daniel Cohn-Bendit, ‘Danny, le Rouge’ também está na edição da revista, que comenta o lançamento do seu livro Forget 68, e do qual traz alguns excertos inéditos. Quem lê as primeiras linhas imagina um Cohn-Bendit triunfalista, ainda no papel de jovem líder estudantil de Nanterre, apelidado de ‘o Vermelho’ por seu radicalismo de esquerda. Mas, 40 anos depois, o antigo incendiário tornou-se deputado do Parlamento Europeu pelo Partido Verde do seu país de origem, a Alemanha.

No título do seu livro, Cohn-Bendit pede que esqueçam 68. E por quê? ‘Porque vencemos’, responde, sem hesitar. No entanto, o que se lê nas páginas seguintes não é exatamente um inventário de triunfos e auto-elogios. Ele entende que a vitória se deu no plano cultural; e neste, ela foi integral. Avançou-se nos costumes, nas relações entre homem e mulher, na consideração da liberdade e da autonomia do indivíduo como direitos absolutos, etc. Conquistas de 68.

Mas, em seguida, começa uma lista também significante de ‘poréns’. Cohn-Bendit acha que sua geração ainda tem dificuldades na relação com a globalização e que, portanto, não entende muito bem o mundo contemporâneo. Muitas vezes essa geração permanece presa de ‘categorias políticas ultrapassadas’ e bipolares como capitalismo x socialismo, bem x mal, Estado x mercado.

Outra falha de 68 e sua gente pode ser encontrada na maneira de se relacionar com o poder. Ele se refere à descrença na ‘democracia formal’, como se dizia na época. Ceticismo formulado em uma das palavras de ordem famosas dos estudantes: ‘Élections, piège à cons!’ (Eleições, armadilhas para idiotas). Talvez não fosse possível, naquele ano, raciocinar de outra forma, considera Cohn-Bendit, ‘porque estávamos presos ao mito de um sistema político pós-democrático’. O que seria isso? Uma sociedade organizada através de conselhos operários, camponeses, estudantes, consumidores, tudo funcionando na base da autogestão. Uma utopia. E, ao desprezar o processo democrático, teriam sido lenientes com os totalitarismos, incluindo o soviético.

Esse é o balanço de 68 de Danny, o Vermelho, hoje convertido em Danny, o Verde.

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