O mágico cinema dos Taviani
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O mágico cinema dos Taviani

Luiz Zanin Oricchio

26 de novembro de 2013 | 19h12

Público fiel, embora pequeno, vem acompanhando no MIS a retrospectiva dos irmãos Taviani promovida pelo Festival do Cinema Italiano. A mostra está no fim, mas ainda há tempo para curtir  hoje dois filmes dos “Fratelli”, Sob o Signo de Escorpião e Os Subversivos, e amanhã César Deve Morrer e Noites com Sol.

Deles, César Deve Morrer é o mais conhecido e recente, mesmo porque valeu aos irmãos Paolo e Vittorio o Urso de Ouro em Berlim há dois anos. Foi uma ressurreição, em especial para aqueles que já os consideravam aposentados em provecta idade. Nada disso. Voltaram com todo o frescor com os bastidores da montagem de Julio César, de William Shakespeare, pelos detentos da prisão de Rebibbia, em Roma.

Noites com Sol é também a adaptação de um clássico – Padre Sérgio, de Leon Tolstoi. História do homem que, após uma desilusão amorosa, decide se dedicar à religiosidade e à meditação, mas tem os bons propósitos ameaçados por uma mulher linda e sedutora. Música de Nicola Piovani, que fará a trilha de vários trabalhos dos irmãos, inclusive a de Kaos, talvez seu ponto mais alto como compositor de cinema.

O fato é que, quem seguiu a mostra, pôde reviver filmes que foram sucesso do circuito cult no Brasil, em especial nos anos 1980. Allonsanfan, A Noite de São Lourenço, Kaos e, acima de todos, Pai Patrão, colocaram os Taviani como grandes nomes do cinema italiano, continuadores, com estilo próprio, da tradição cinematográfica de Roberto Rossellini, Federico Fellini, Luchino Visconti e Michelangelo Antonioni.

Esse pequeno público cinéfilo de São Paulo pôde rever essas obras em magníficas cópias em 35 mm cedidas pela Cineteca Italiana. Foram sessões de pura fruição cinefílica na sala do MIS. A mostrar que, se o digital faz progressos inegáveis, ainda está longe de rivalizar com as texturas e matizes de cores da película. Só não vê quem não quer. Em especial na obra dos Taviani, diretores cultos, toscanos, e portanto bastante influenciados pela pintura do seu país.

Em A Noite de São Lourenço, por exemplo, um relato do final da 2ª Guerra, com a cidadezinha dinamitada pelos nazistas, há momentos de pura arte pictórica, com cenas iluminadas aparentemente apenas por velas, ou pelo luar. O mesmo para Kaos, livre adaptação de alguns contos de Luigi Pirandello presentes em suas Novelle per un Anno. A versão apresentada foi a que contém um prólogo, os episódios O Outro Filho, Mal da Lua e A Jarra, além do epílogo Colóquio com a Mãe – momento de pura epifania cinematográfica. Nele, Pirandello (Omero Antonutti), o próprio, volta à Sicília atendendo a enigmático chamado. O relato da mãe, de uma passagem de sua infância, é comovente, cheio de alusões em sua simplicidade quase absoluta, impossível de ser captada pela literatura como se queixava o filho, escritor famoso.

Quem assistiu ao ciclo pôde ver algumas obras menos conhecidas dos irmãos, como Os Subversivos, imprevisivelmente influenciado pela nouvelle vague, e o alegórico Sob o Signo de Escorpião. Este, mostrando o que acontece quando sobreviventes de erupção em uma ilha vulcânica buscam abrigo em local semelhante do qual fogem. Aquele, um retrato sobre as esperanças e impasses da esquerda italiana diante da morte de um ícone do Partido Comunista, Palmiro Togliatti (1893-1964).

Num momento em que o cinema em geral parece pouco inspirado e, em especial, o outrora grande cinema italiano apresenta poucos rasgos de imaginação, ver e rever os Taviani é um refresco. E um renovado ato de fé no cinema.

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