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O Lugar onde Tudo Termina: a triste América dos perdedores

Luiz Zanin Oricchio

24 de junho de 2013 | 14h57

É uma história de amor e violência, e muito bem filmada. Cianfrance, diretor de talento (é dele o também surpreendente Namorados para Sempre), confere intensidade às imagens. Há força nelas. E também paixão e pouco receio de fazer uma narrativa para adultos. O que significa ser um espectador adulto? É aquele que, por ter alguma experiência de vida (e de cultura, cinema aí incluído), suporta bem a ambiguidade dos personagens.

O Luke, de Ryan Gosling, não é exatamente um modelo de cidadão a ser seguido por sua conduta. Não tem atitudes bonitas, mas, mesmo assim, é possível que atraia a simpatia de grande parte da plateia. Sem retórica, sem desculpar seus atos, leva o público ao desejo de compreendê-lo. Ao contrário do que diz o ditado francês (“tudo compreender é tudo perdoar”), o espectador adulto pode entender determinadas ações como partes da experiência humana e nem por isso endossá-las ou deixar-se influenciar por elas. Uma obra de ficção abre uma janela para a experiência humana mais completa, mesmo que não a desejemos para nós. Não precisamos admirar Raskolnikov para acompanhá-lo, com curiosidade, e mesmo simpatia, pelo labirinto de Crime e Castigo.

O mesmo se pode dizer do policial Cross, vivido por Bradley Cooper. Pode alguém ter a consciência pesada por algum ato praticado e, ao mesmo tempo, beneficiar-se desse ato? É esse tipo de dilema moral que O Lugar Onde Tudo Termina propõe ao espectador. O veículo desse questionamento será a trajetória de Avery Cross ao longo de 17 anos.

Sim, porque Cianfrance trabalha com essa extensão de tempo, dando oportunidade que os personagens (pelo menos alguns deles) cresçam, se modifiquem, se desenvolvam. E, de certo modo, se enredem nas contradições que o destino reserva para quase todo mundo nos cantos escuros da vida. Isso se aplica a todos os personagens envolvidos no drama.

De resto, Cianfrance retrata uma América pouco triunfante, bem diferente da dos blockbusters alienados. É, um pouco, a América dos perdedores, dos losers (o pior insulto numa sociedade competitiva), da arraia-miúda formada por brancos pobres, imigrantes sem papéis, negros desempregados. A pequena margem da sociedade, que pode nem estar na miséria absoluta, mas a contempla como uma possibilidade real, a ser evitada com todas as forças e por todos os meios. É também a América da corrupção policial e política, de tudo aquilo que escapa ao controle e à vigilância e forma o armário de esqueletos das comunidades moralistas. Não deixa de ser também a América das drogas, dos filhinhos de papai, transgressores de costas quentes e irresponsáveis.

O desejo de colocar tudo isso no mesmo saco, revela um cineasta ambicioso, no melhor sentido do termo. Cianfrance usa sua arte não apenas como possibilidade de entretenimento, mas como ferramenta de conhecimento de um mundo que nos fascina e espanta.

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