As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

O Leão de Glauber volta a rugir

Luiz Zanin Oricchio

06 de dezembro de 2010 | 18h19

Pronto: apareceu o favorito absoluto do festival. Era essa a brincadeira que mais se ouvia após a exibição no Cine Brasília de O Leão de Sete Cabeças. O filme ajusta-se às três palavras mais em alta em Brasília 2010 – inovação, risco, coragem – mas, como qualidades estéticas, pouco aparecem nos concorrentes. No entanto, elas cabem à perfeição no figurino deste filme de 1970, que Glauber Rocha realizou na África durante seu exílio. O que vimos foi uma cópia restaurada, perfeita, com cores e som original. Um show.

Reprodução
Reprodução
Cópia restaurada expõe inovação, risco e coragem

Um show que custou muito trabalho, informou Paloma Rocha, filha do diretor baiano morto em 1981. Nova matriz teve de ser elaborada a partir de negativo depositado na Cineteca Nazionale, em Roma, escaneado em 4K pela Cinemateca Brasileira, com restauro em 2K pelos Estúdios Mega. O resultado é magnífico, marco na restauração de importantes filmes brasileiros. A cópia vista em Brasília é zero-quilômetro. “Mas não há como distribuí-la nos cinemas, pois os exibidores são reticentes a esse tipo de produção”, disse Paloma. Por enquanto, O Leão de Sete Cabeças será lançado em mil cópias de DVD destinadas a instituições e em 2011 sai em versão comercial pela Versátil.

O filme foi rodado no Congo-Brazzaville em 1969 e lançado no Festival de Veneza de 70. Expressa o pensamento de Glauber, na época, a respeito do colonialismo e do terceiro-mundismo. O enredo do mundo colonial (africano, no caso, mas transportável para o Terceiro Mundo em geral) encena-se como tragédia. Nela, os personagens são tipos que representam instâncias – o imperialismo, a Igreja, o revolucionário, o mercenário, a burguesia local, etc. De certa forma, Leão de Sete Cabeças dá sequência, em nível mundial, à reflexão nacional de Terra em Transe, obra-prima do diretor. Para fazê-la, Glauber contou com elenco internacional: a loura Rada Rassimov faz Marlene, ícone do imperialismo europeu na África; o ator-fetiche de François Truffaut, Jean-Pierre Léaud, vive pregador católico; o italiano Gabriele Tinti, um agente americano. A presença brasileira é de Hugo Carvana, no papel de agente do colonialismo português.

Como proposta de cinema revolucionário, Leão de Sete Cabeças não poderia ser mais enfático – aborda as questões políticas mais prementes da época, sob a ótica de esquerda, e numa forma transgressiva. Procedimentos como a encenação poética, o transe, o distanciamento brechtiano emergem de um processo de invenção imagética permanente. A tragédia do colonialismo está lá, em diálogo com a obra de Fanon, mas não sob a forma de tratado sociológico analítico. As ideias dão a base, mas é como se Glauber as transfigurasse e procurasse atingir certo inconsciente da política, descendo às estruturas profundas das relações de dominação e submissão propostas pela História do século 20. Um filme desses nos ensina, pelas entranhas.

?

Tudo o que sabemos sobre:

cinema brasileiroGlauber Rocha

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: