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O kibutz em questão

Luiz Zanin Oricchio

28 de setembro de 2007 | 19h43

Durante muito tempo, o kibutz foi mitificado como um ideal de vida comunitária aplicado por Israel. É uma visão pouco idílica dessas comunidades agrícolas aquela que passa Exuberante Deserto, de Dror Shaul, ele próprio israelense e criado num desses kibutzim. Crítico, o filme não se parece, no entanto, a um vulgar acerto de contas. Apenas coloca em xeque a dificuldade de cavar um espaço para a diferença onde todos se querem iguais.

Como dizia George Orwell em sua distopia Revolução dos Bichos ‘todos são iguais, mas alguns são mais iguais do que outros’. Mesmo num sistema em tese de democracia direta, em que todos são responsáveis pelas medidas tomadas em nome da comunidade, existe distribuição desigual de poder. Há pessoas mais influentes que as outras, capazes de dominar as votações. E assim como existem os mais poderosos, há também os mais frágeis. Um desses frágeis será a bela Miri (Ronit Yudkevitz), mãe do protagonista, o garoto Dvir (Tomer Steinhof). Miri perdeu o marido, namora um suíço muito mais velho do que ela, não-judeu ainda por cima, e já foi internada por distúrbios emocionais. Problemas ‘dos nervos’, desarranjos psiquiátricos: ou seja, é uma séria candidata à exclusão.

Exuberante Deserto alterna seu desenho entre dois focos. Num é um filme sobre o crescimento, o garoto que vai completar 13 anos, a idade importante em que o menino judeu celebra seu Bar Mitzvah e torna-se responsável por seus atos. Dvir, na verdade, já o era anteriormente, pois precisa em certa medida tomar conta da mãe frágil e instável. No outro, para retratar essa comunidade, o diretor Dror Shaul coloca esse ponto de instabilidade a partir do qual poderá estudá-la em sua maneira de reagir a tudo aquilo que a perturba e ameaça desequilibrá-la. A comunidade dispõe de métodos de defesa para sua sobrevivência e muitas vezes esses procedimentos não absorvem as diferenças individuais.

Esses são os desafios de um filme que passou pelo laboratório do Sundance e foi premiado no festival de Park City, o que não é pouca coisa, já que o coloca na categoria dos independentes. Não que Exuberante Deserto seja uma obra de rupturas mas, como observará o espectador, mexe em não poucos tabus e, um deles, em particular, muito forte na cultura judaica.

Essa disposição para tocar em assuntos incômodos só faz melhorar um projeto, pelo menos para quem entende que a realidade humana deve ser debatida em suas contradições e que não constitui pecado retratá-la em seus desvãos menos visíveis. Claro que isso não faz de um bom projeto um filme interessante. O mérito de Exuberante Deserto é ser bem narrado e bem interpretado, mas não parece fazer parte das preocupações do cineasta adotar procedimentos destoantes do habitual. Faz um cinema talvez sem brilho, mas de modo nenhum convencional. Seria uma contradição em termos criticar a convenção no conteúdo e adotá-la na forma.

(Estadão, Caderno 2, 28/9/07)

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