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O jovial e irreverente Oscar Niemeyer

Luiz Zanin Oricchio

21 de abril de 2007 | 11h53

No umbral dos 100 anos, Oscar Niemeyer manda um recado às pessoas que se levam muito a sério: ‘A vida é um sopro.’ Esse é o título que o documentarista Fabiano Maciel dá ao filme em homenagem ao arquiteto. Niemeyer repete a frase várias vezes, com aquela simplicidade de quem já está habituado a pensar na finitude: olhemos para o cosmos, para a dimensão do infinito, para nos convencermos de que somos insignificantes, piolhinhos diminutos em relação ao universo. Por paradoxo, é a consciência da sua insignificância que permite ao homem viver bem. Maciel propõe que a trajetória de Niemeyer seja também uma lição de vida para cada um de nós. Nisso está a beleza do filme.

A Vida É Um Sopro trabalha com depoimentos sobre o arquiteto. Desfilam pela tela nomes ilustres: Chico Buarque, Ferreira Gullar, José Saramago, Eric Hobsbawm, entre outros. Um dos melhores depoimentos é do escritor uruguaio Eduardo Galeano. Pela negativa, ele o define: ‘Niemeyer odeia o capitalismo e a linha reta.’ Ama, portanto, o socialismo e a mulher: a sociedade mais justa (sem cogitar se é uma utopia ou não) e as curvas da mulher amada e do Rio, sua cidade natal, a cidade mulher. Seu projeto arquitetônico passa por essa visão de mundo. E encontra a materialidade nas possibilidades de construção do concreto armado. Niemeyer fala do concreto com o carinho que destinaria a uma namorada.

A arquitetura é uma maneira de intervir no mundo, de colocar a obra do homem em harmonia com a natureza, como Niemeyer procura fazer. Não se trata de uma atividade técnica, no sentido mais restrito do termo. A técnica, o cálculo, o projeto se colocam como maneiras de dar forma a uma idéia sobre a sociedade, sobre o semelhante e as possibilidades de convivência de uma maneira menos agressiva. É uma utopia, feita de concreto, de tijolos e lajes? Sim, pode ser.

Mas, como se pode deduzir do depoimento do historiador inglês inglês Eric Hobsbawn, esse utopismo nada tem de ‘romântico’, no mau sentido do termo. Quer dizer, de sonhador, delirante, inaplicável no mundo das coisas reais e da prática. Pelo contrário, sem a perspectiva utópica, torna-se difícil construir um futuro, pensar uma nação. Hobsbawm lembra que Niemeyer não aparece sozinho, como se fosse a magnífica exceção num mar de nulidades. Nada disso, ele faz parte de uma privilegiada geração brasileira, a de 1930, formada por gente como Gilberto Freyre, Caio Prado Jr., Sérgio Buarque de Holanda, Darcy Ribeiro.

Uma geração que tinha ambição de pensar o Brasil, suas raízes, sua possível originalidade, seus problemas, seus impasses. Uma geração que tentava tomar consciência do País e de si mesma para projetar um futuro. Hobsbawm compara essa geração privilegiada àquela dos anos 80 e 90, cínica, desencantada, dinheirista, individualista e estéril. Como pensar um país se essa pobre ‘intelligentsia’ não consegue ultrapassar os limites do próprio umbigo e olha apenas para seus interesses de classe? O brilho de Niemeyer, quaisquer que sejam suas contradições (e ele as tem aos montes), só aumenta no confronto com essa mediocridade depressiva e deprimida.

Por isso mesmo, pela força de Niemeyer, o documentário não precisava evitar as contradições do personagem. Niemeyer pode ser brilhante; não é inatacável, não é um figurão chapa-branca e nem fica bem no papel, ele que usa o palavrão como recurso de linguagem com a desenvoltura de um moleque, que no fundo ele nunca deixou de ser.

O próprio cinema já revelou aspectos mais polêmicos de Niemeyer, sendo o documentário Conterrâneos Velhos de Guerra, de Vladimir Carvalho, o exemplo mais conhecido. Nesse filme, que trata do outro lado da construção de Brasília, vemos um Oscar Niemeyer irritado com o entrevistador quando questionado sobre um acidente que teria acontecido com trabalhadores durante a construção da nova capital. A acusação do filme de Vladimir é que Brasília foi feita a toque de caixa, para ser inaugurada por Juscelino, e as normas de segurança foram relaxadas. Por isso aconteceram esses e outros acidentes fatais. Irritado, o arquiteto, bem à sua maneira, acaba mandando o entrevistador ‘à merda’, resposta preservada no filme.

A Vida É Um Sopro buscou outro caminho, o de filme-homenagem. Nem assim consegue ser chapa-branca, porque Niemeyer é irreverente com os outros como consigo mesmo. Desconstrói a própria imagem. E nos diz que a vida pode ser mesmo um sopro, e ainda assim vale a pena ser vivida, desde que com a intensidade e paixão com que vive a sua.

(SERVIÇO)
Oscar Niemeyer – A Vida É um Sopro (Br/2006, 90 min.) – Documentário. Dir. Fabiano Maciel. Cine Bombril 2. 18 h. Cotação: Bom

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