O Jovem Ahmed e o radicalismo religioso *
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O Jovem Ahmed e o radicalismo religioso *

Luiz Zanin Oricchio

24 de fevereiro de 2020 | 09h37

 

À sua maneira, despojada e intensa, os irmãos Dardenne procuram entender o apelo à violência entre jovens de origem islâmica radicados na Bélgica. O Jovem Ahmed fala diretamente deste personagem. Ótimo aluno, embora tenha sido disléxico na infância, Ahmed, agora na adolescência, recusa-se a dar à mão à sua professora – pelo simples fato de ela ser uma mulher. Ahmed toma essa atitude inspirado em seu imã, seu mentor espiritual e homem muito radical. 

Se num primeiro momento Ahmed (Idir Ben Addi) simplesmente se recusa a cumprimentar a mestra – justamente ela, responsável pela cura de sua dislexia –, passa depois a alimentar uma crescente hostilidade, a ponto de tentar matá-la. Por fim, é enviado a um centro de reeducação instalado numa fazenda. Lá ele conhece uma garota mais ou menos de sua idade (13 anos), Louise (Victoria Bluck), que parece se interessar por ele também. 

A arte dos Dardenne consiste em filmar suas histórias de maneira muito próxima aos personagens. Como se quisesse penetrar em suas almas e entender suas motivações. Compreender, esta é a palavra que parece guiar esse cinema bastante realista, muito antenado nas questões sociais que afloram, mesmo em uma sociedade tão avançada quanto a belga, e que não transforma seus personagens em teses, guardando sua dimensão humana. Isto é, busca o que neles existe de contraditório, de frágil e incerto. Parece insinuar que, através dessas frestas, algum avanço pode ser feito. Mesmo num caso como este, em que o fanatismo religioso incorpora-se a um jovem vivendo no interior de uma sociedade laica. 

Os irmãos Luc e Jean-Pierre Dardenne tornaram-se mundialmente conhecidos por seu Rosetta (1999), filme sentido como um soco numa Europa afluente, muito confiante em seu estado de bem-estar social para prestar atenção aos marginalizados desse sistema. No caso, uma mocinha que, de maneira muito simples, quer apenas um emprego para se inserir na sociedade. Com este filme, o público foi apresentado a um estilo de filmar, com a câmera rente à personagem, em longos planos sequência, densos de sentimento e significado. 

Com o tempo foram apresentando outros trabalhos de sucesso, como A Criança, O Silêncio de Lorna e A Garota Desconhecida. Filmes fortes, discutindo questões sociais e impasses morais. Cinema adulto. Mas parte da crítica parece que foi enjoando do approach cinematográfico dos irmãos, que passaram a ser acusados de repetição. Seria o caso de reprovar um filme de Fellini porque se parece a um filme de Fellini, ou um Woody Allen porque também é reconhecível, e assim por diante. 

Outra maneira menos birrenta de ver o mundo é reconhecer uma trajetória marcada pela virtude rara da coerência. Do ponto de vista temático, os Dardenne mostram-se plugados nos desafios propostos pelas sociedades contemporâneas. Apesar de belgas, parecem não acreditar em utopias de bem-estar e mostram os desafios do indivíduo frente à impessoalidade do Estado. Em A Garota Desconhecida, havia embutida a questão dos imigrantes frente ao drama de consciência de uma jovem médica (Adèle Haenel). Agora, em O Jovem Ahmed, é a questão do radicalismo. Como enfrentá-lo sem recair na armadilha, esta sim letal, da xenofobia? 

Também são criticados por finais tidos como redentores. Mas estes talvez sejam expressão simples da fé que, apesar de tudo, mantêm na humanidade. Ao apresentarem um personagem tão problemático quanto este garoto Ahmed, os Dardenne recusam-se a considerá-lo um caso perdido. Este é o traço de um cinema humanista, e coerente em sua proposta e crença. 

  • Crítica escrita durante a cobertura da Mostra de Cinema em São Paulo

 

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