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O intelectual morreu?

Luiz Zanin Oricchio

01 Novembro 2006 | 18h15

Leio na Cult deste mês uma entrevista em que Sergio Paulo Rouanet garante que o intelectual não existe mais. Ele quer dizer: o intelectual engajado, cujo modelo foi Émile Zola, que teve a coragem de remar contra a corrente e escrever um artigo chamado J’Accuse! (Eu acuso) no jornal L’Aurore, defendendo o capitão Dreyfus que havia sido condenado por traição e estava preso na Ilha do Diabo. O romancista Zola sofreu as conseqüências do seu ato, foi perseguido, exilou-se, mas sua mensagem teve eficácia. O caso Dreyfus foi reaberto e o capitão inocentado. Havia sido condenado não por qualquer culpa sua, mas pelo anti-semitismo da sociedade francesa. O caso é exemplar e Rouanet define o intelectual como aquele cidadão que mete o nariz onde não é chamado. O negócio de Zola era escrever romances; ele meteu seu nariz numa decisão judicial. Deu no que deu e o caso tornou-se um exemplo para a humanidade.

Segundo Rouanet, esse tipo de intelectual está em via de desaparecimento. O mundo anda cada vez mais especializado e cada um fica na sua. Quer dizer, cada qual mete o bedelho em sua própria seara, o que anula a própria definição da figura do intelectual, que seria um homem da coisa pública. Em outro ponto da entrevista, Rouanet cita o exemplo brasileiro, em que os intelectuais teriam se calado diante dos recentes casos de corrupção. Esse “silêncio dos intelectuais” seria prova da sua obsolescência. Será mesmo? Tenho minhas dúvidas. Por maior que seja a decepção de Rouanet com os rumos da política, me parece prematuro esse enterro da figura social do intelectual. Bem ou mal eles continuam por aí, fazendo seu serviço. No Brasil, no mundo, e em lugares onde menos se espera que existam.

Por exemplo, na China. Todos sabem que na China não existe democracia, como a conhecemos. Todo mundo também sabe que a China está em vertiginosa expansão econômica e tornou-se presença fundamental no cenário do mundo. Na Europa todos falam na China. Idem nos Estados Unidos. Mas na própria China existem pessoas que pensam nas conseqüências do caminho escolhido pelo país e apontam para os problemas decorrentes. São os chatos de plantão, que vêem defeitos onde os outros só enxergam qualidades. Um deles é o cineasta Jia Zhang-ke, presente na Mostra com dois filmes ultra críticos sobre a atualidade chinesa, a ficção Still Life e o documentário Dong (que passa hoje, às 21h30, no Espaço Unibanco). Zhang-ke entende que a modernização capitalista acelerada está cobrando um alto preço humano aos chineses. O governo não gosta dele. Mas e daí? Zhang-ke não cumpre exatamente o papel de um intelectual moderno?