O Inquilino de Rebecca *
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O Inquilino de Rebecca *

Luiz Zanin Oricchio

06 de março de 2013 | 18h00

Laurence Olivier e Joan Fontaine em Rebecca

 

A editora Amarilys lança os dois primeiros volumes de sua coleção dedicada a romances transformados em filmes. Rebecca, de Daphne du Maurier, foi adaptado para a tela por Alfred Hitchcock em 1940, enquanto O Inquilino, de Roland Topor, ganhou versão cinematográfica de Roman Polanski em 1976.

Há traços comuns entre as duas versões. O primeiro delas é a fidelidade à história, o que nem sempre é o caso quando a literatura encontra o cinema. Pelo contrário: o normal é o diretor, através do seu roteirista (quando não é o cineasta o próprio autor do script), deformar criativamente o texto para que este caiba nas dimensões da medida cinematográfica. É o que acontece, com frequência, no caso das grandes obras, como Em Busca do Tempo Perdido, de Marcel Proust, que é vertido apenas em parte, como fez Volker Schloendorff (Um Amor de Swann) ou Raul Ruiz com O Tempo Reencontrado. Adapta-se apenas um dos sete volumes porque seria impossível abarcar a obra inteira. Outros optam pela solução radical, como Rainer Werner Fassbinder, que faz uma gigantesca versão cinematográfica de Berlim Alexanderplatz com 16 horas de duração.

Nos dois casos em questão, o problema era mais simples. Hitchcock, como conta em seu livro de entrevistas a François Truffaut (Editora Cia das Letras), recebeu a encomenda pronta do produtor David O. Selznick quando foi aos Estados Unidos. Fora chamado a Hollywood para dirigir um filme sobre o Titanic, proposta que o encantava. Lá chegando, recebe a notícia de que o projeto havia mudado e iria filmar Rebecca. Quem escrevera o roteiro era o dramaturgo Robert Sherwood, que, de acordo com o cineasta, manteve-o bastante fiel ao texto.

Rebecca é um romance gótico extemporâneo, no qual uma mocinha ingênua (Joan Fontaine) apaixona-se por um viúvo aristocrático (Laurence Olivier), atormentado pela memória da mulher, morta aparentemente num acidente de barco. O casal, que se conhecera em Montecarlo, vai morar na propriedade da família do marido, um castelo lúgubre chamado Manderlay. Lá, entre a criadagem, encontra-se a governanta Mrs. Danvers, que cultua, com devoção fanática, a memória da antiga patroa. A história toda é marcada por essa personagem que não aparece, a morta chamada Rebecca. A adaptação deu a Hitchcock seu único Oscar de melhor filme. No Brasil, país amante das explicações e avesso a títulos lacônicos, ganhou o subtítulo de A Mulher Inesquecível, o que provocou muitas piadas e trocadilhos entre os intelectuais da época.

Apesar da manifesta má-vontade com o projeto que lhe fora imposto, Hitchcock impôs a Rebecca seu “touch” inconfundível. Os longos planos de Manderlay, seu mistério, o jogo de luz e sombra, traçam um panorama progressivamente aterrador. Dá também à história um sentido de investigação policial e a povoa de personagens pérfidos (como o de George Sanders, no papel do chantagista primo de Rebecca). Algumas passagens são de arrepiar, incluindo o desfecho vibrante e catártico, com as memórias lambidas pelas chamas, o que muito lembra o de Cidadão Kane, de Orson Welles, seu quase contemporâneo.

Polanski, protagonista em seu próprio filme

Com a adaptação de O Inquilino, de Roland Tapor, Polanski lida com um motivo semelhante ao de Rebecca – as ações do seu protagonista são, em boa medida, determinadas por uma personagem ausente. Aqui, ela é uma certa Simone Choule, que, sem que ninguém saiba o motivo, jogou-se do quarto andar de um edifício em Paris. Como consequência, está internada em estado grave e o seu apartamento ficará vago. Basta que morra. O candidato a locatário, Trelkovsky (interpretado pelo próprio Polanski) inicia as tratativas com o proprietário do imóvel, mas, antes da mudança, vai visitar Simone no hospital, onde conhece Stella (Isabelle Adjani), a sedutora amiga da suicida.

Esse é o início do pequeno romance (136 páginas), que nos revela um escritor concentrado e sintético, pouco conhecido no Brasil. Topor, aos poucos, conduz seu personagem (e o próprio leitor) por um caminho tortuoso em que a paranoia se mescla ao clima fantástico. Nunca se sabe ao certo se as coisas estão acontecendo de verdade ou se passam apenas na imaginação doentia do personagem. Narrado em terceira pessoa, o livro propõe que acompanhemos a odisseia do personagem rumo a uma progressiva perda da identidade própria.

Sentindo-se perseguido pelos vizinhos, que reclamam de ruídos no apartamento, logo Trelkovsky julga-se alvo de um complô. A vigilância entre as pessoas, a intolerância do proprietário e da concierge, a obsessão com o barulho por mínimo que seja, são fatos ligados ao folclore das relações humanas nos velhos prédios de Paris. Quem não os viveu por experiência própria pode conhecê-los, por exemplo, através das vívidas descrições de Julio Cortázar em O Jogo da Amarelinha.

Com esse ponto de partida, Topor visa algo mais amplo, a saber, o mal-estar do indivíduo, a sua despersonalização, ainda que viva em uma sociedade aberta e afluente. Nessas condições, parece sempre mais difícil manter intacto o trabalho autônomo da mente em terreno inóspito. Visa, também, alvos mais distantes e ambiciosos, como as questões da identificação com um outro que se desconhece (mote cortazariano, também) e, por fim, o tema do duplo, o Doppelgänger, obsessão permanente dos criadores. O outro de mim mesmo, que me contempla como num espelho e pode me destruir: é nessa estrada de progressivo estilhaçamento que caminha a frágil personalidade de Trelkovsky.

Com O Inquilino, Polanski completa a sua “trilogia do apartamento”, iniciada com Repulsa ao Sexo e O Bebê de Rosemary. Seu talento para dotar esses ambientes fechados de uma estranha e palpável presença é impressionante. Os espaços ganham vida própria, são opressivos, sente-se quase seu cheiro. São personagens da história, quase tanto como os pobres seres humanos que se dilaceram em seu interior.

* Texto originalmente publicado no Caderno Sabático, do Estadão, em 2/3/2013

 

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