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O inferno são os outros

Luiz Zanin Oricchio

13 de maio de 2008 | 16h10

Uma amiga perguntou por que o Flamengo jogava contra o Santos com o Maracanã vazio. O STJD determinou que a partida fosse com portões fechados, respondi. E por quê?, insistiu. Expliquei: um torcedor do Flamengo atirou uma lata no campo e o time levou a punição. Mais uma pergunta da amiga, para encerrar o assunto: E o que o Santos tem a ver com isso? Fiquei sem saber o que dizer, porque, de fato, aprendi na escola que apenas os culpados devem ser punidos por seus atos anti-sociais. Assim, como castigar toda uma coletividade pela ação de um único vândalo? E – pior – como punir a torcida do outro time, que nada tem a ver com o malfeito? Como punir a todos nós com um jogo frio, indiferente, chato, sem alma, um tédio só?

Bom, alguém pode dizer que mesmo com a torcida do Mengo na arquibancada a coisa talvez não fosse tão diferente assim, tamanha a mediocridade vista naquele templo do futebol. Afinal, como jogaria o Flamengo ainda em plena ressaca da desclassificação inesperada diante do América do México? Mas, como saber? Afinal, trata-se da maior torcida do Brasil e, por certo, parte dela estaria lá para incentivar o time, fazê-lo esquecer do vexame, ou, simplesmente, para cobrar mais brio e raça. Seja como for, a torcida daria colorido àquele jogo opaco. E só a torcida mesmo poderia fazer isso, porque futebol dentro de campo, que é bom, não se viu. Nem por parte do Flamengo, que fez a sua parte com facilidade, e muito menos do Santos, com um time reserva, desentrosado e desmotivado.

Nos outros jogos, a coisa não foi muito melhor, pelo menos nos que acompanhei. Provavelmente, a melhor partida foi Portuguesa 5 x Figueirense 5. Placar de pelada, de baba, como se diz na Bahia. Mas, tirando a Lusa, a rodada foi pífia, em especial para os paulistas. Também o São Paulo se poupou para a Libertadores e perdeu do Grêmio, no Morumbi. O Palmeiras parecia bastante confiante em si, a ponto de ficar surpreso com a resistência do Coritiba, que jogou melhor que o Palestra e ganhou com méritos.

O detalhe interessante desse jogo foi a reclamação palmeirense contra as firulas de Michael. Como? O time de Valdivia protestando porque o adversário usa malícia e jogadas de efeito para conseguir uma vantagem? Não pode. Só quando Valdivia é o protagonista. Nesse caso, trata-se de futebol-arte, intolerável para os brucutus. Como dizia Jean-Paul Sartre, aquele famoso ponta-esquerda da seleção francesa, “o inferno são os outros”. E, para não dizer que não houve nada de novo no front, Luxemburgo queixou-se da arbitragem.

Verdade que essa impressão inicial de pasmaceira tem uma explicação, ou mais de uma. Vários clubes continuam com o foco em outras competições, como a Libertadores e a Copa do Brasil. O Campeonato Brasileiro, por enquanto, fica em segundo plano. Afinal, é competição de tiro longo. Não adianta relembrar que os pontos perdidos agora jamais serão recuperados porque ninguém aprende mesmo. E, de fato, é mais urgente privilegiar o curto prazo do que pensar no futuro. Nenhum clube tem elenco para enfrentar duas competições ao mesmo tempo. Tem de ir administrando esse cobertor curto -se puxar de um lado, descobre o outro.

Além disso, o futebol, como tudo em nosso mundo, virou uma atividade frenética. Os torneios se sucedem ou se encavalam, como está acontecendo agora, e nem clubes nem as torcidas têm forças suficientes para se dedicar a todas as exigências. Como os clubes têm de ir se adaptando ao Campeonato Brasileiro, também nós precisamos nos acostumar a ele. É preciso tempo. Mas tempo é o que menos se tem hoje em dia.

(Coluna Boleiros, 13/5/08)

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