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O inferno dos livros

Luiz Zanin Oricchio

12 de setembro de 2007 | 15h48

PARIS – O título é irônico, claro. Mas só quem é bibliófilo, como eu ou meu amigo Antero Greco, sabe a tortura que é ter uma montanha de livros à disposição sem poder comprá-los, por falta de grana ou de mero espaço para guardá-los numa já abarrotada casa. Ou simplesmente, quando se está viajando, por falta de lugar numa mala que já está pesando uma tonelada. Na vinda da Itália para a França, já fui parado no check-in por excesso de bagagem. Estava estourando em quatro quilos. Tive de tirar alguns volumes da mala e colocá-los na mochila do computador – e minhas costas pagaram o preço. Agora tenho de ajuntar a esse excesso italiano, os que já comprei em Paris. E olhe que estou me segurando como posso. Mas, como resistir?

Eu já havia xeretado muito livro nos bouquinistas do Sena, pelos quais passo todo santo dia. No começo, confesso, fiquei meio decepcionado. Achei que eles haviam mudado de perfil e agora se dedicavam mais à venda de quinquilharias para turistas do que de livros, como indica o nome da sua profissão e tradição. Mas depois fui fuçando melhor e as coisas foram aparecendo por trás das bijouterias e imitações da Torre Eiffel. Como faz um devoto de Proust para resistir a um Jean Santeuil e um Contre Saint-Beuve, ambos com capa de couro e a meros 20 e poucos euros cada um?

Hoje de manhã saí com uma incumbência muito precisa: precisava encontrar uns livros de cinema, pois estes fazem parte do trabalho, não se trata portanto de pecado. Foi difícil encontrar, um deles, sobretudo, o badalado, entre cinéfilos, Voir et Pouvoir, de Jean-Louis Comolli. Comecei por uma vistosa livraria ao lado da Sorbonne, que não tinha, mas a dona, muito simpática, consultou seu catálogo para encontrar casas especializadas em livros de cinema.

Deu-me um endereço perto dali, rue Serpente (não é um belo nome de rua?). Acontece que a tal livraria havia mudado de especialidade e agora se dedicava apenas às BDs, as populares bandes déssinées, ou histórias em quadrinhos. Pensei no estrago que a loja não faria no orçamento do Jotabê Medeiros, mas não era o meu caso.

O dono me disse que a tal livraria de cinema havia mudado para a rue Monsieur Le Prince e lá fui eu. Não havia. Tinha outro do Comolli, junto com o Rancière, que, por via das dúvidas, comprei pois poderia não encontrar aquele que procurava. O lojista me disse que teria de encomendar o Voir et Pouvoir e poderia mandar para o Brasil, mas demorava e seria caro, pois o tijolo tem mais de 700 páginas. Indicou-me outras alternativas e lá fui eu atrás do diabo do livro, que é editado por uma casa pequena e por isso ninguém tem em estoque.

Ou quase ninguém, porque agora acertei de primeira, numa bela livraria da rue des Écoles, que ainda tinha um exemplar disponível, a preço salgado, mas fazer o quê?

O problema, sabemos os viciados, não está nesse caso em que se sai para comprar um determinado livro. O drama é que, em busca de um determinado título, no trajeto ia passando em frente das pequenas livrarias (e no Quartier Latin, é uma atrás da outra), com seus incríveis saldos. Você nem precisa entrar, os livros estão lá expostos na calçada, para tentação do transeunte.

E então, como recusar um Jacques Le Fataliste, de Diderot, por 1,50 euro? Ou a poesia de Rimbaud pelo mesmo preço, o valor de um cafezinho? Assim não dá, né?

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