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O Impossível

Luiz Zanin Oricchio

23 de dezembro de 2012 | 16h29

Em O Impossível, de Juan Antonio Bayona, as cenas do tsunami impressionam (embora as do filme de Clint Eastwood, Além da Vida, sejam melhores). Mas, a bem da verdade, elas representam apenas uma pequena parte do filme. O centro da história (que dizem baseada em fatos reais) é sobre uma família de americanos (casal e três filhos), em férias na Tailândia, atingida pelo tsunami de 2004 que devastou o país.

Durante a catástrofe, a família se dispersa. A mãe, Maria (Naomi Watts), se salva de maneira improvável junto com o filho mais velho, Lucas (Tom Holland), mas ela fica muito ferida. Não sabem se o pai, Henry (Ewan McGregor), e os dois garotos mais novos pereceram ou estão vivos. O foco narrativo fica quase o tempo todo sobre a personagem de Naomi e seu filho.

As cenas do pós-acidente natural são tão fortes quanto as das próprias ondas devastando tudo de imprevisto. O país vira o caos e ninguém sabe onde estão seus familiares. São vidas à deriva. E ninguém sabe se suas pessoas próximas continuam vivas, o que é improvável, ou se pereceram sob as águas. O atendimento hospitalar é precário e a experiência de cada sobrevivente transforma-se numa temporada no inferno.

O filme tem cenas bastante duras e seria mais convincente se abolisse a ideia de que deve manipular sentimentos do público. É inútil. A emoção já está lá, garantida por cenas fortes através das quais podemos nos compadecer dos personagens. É redundante, portanto, fortalecê-las com um tipo de música chantagista que, ao invés de reforçar a emoção, faz com que nos sintamos desconfiados dela, com um pé atrás.

Não se trata apenas da overdose musical, embora este seja o sintoma mais notável da fragilidade dramatúrgica de O Impossível. Pelo menos é o sintoma mais audível. Ele faz parte de um tom geral apelativo que acaba por neutralizar o que poderia haver de sentimentos mais autênticos na história. O fato de ser “baseado em fatos reais” não importa tanto no momento em que estamos vendo uma obra de ficção. Se envolvente, ela criará empatia entre o público e os personagens, ainda que estes sejam frutos da pura imaginação do autor.

No mais, o filme é bem feito e bem interpretado. Não fosse tão manipulador e lacrimoso, talvez causasse efeito maior.

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