O ícone Zé do Caixão
As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

O ícone Zé do Caixão

Luiz Zanin Oricchio

19 de fevereiro de 2020 | 20h22

Cena de ‘Esta noite levarei sua alma’

Morreu José Mojica Marins, aos 83 anos. Os mais jovens talvez não saibam, mas Mojica, ou melhor, seu personagem, o Zé do Caixão, era figurinha carimbada nos anos 1960 e 1970. Não havia quem não o conhecesse. 

No meu caso, e no de muitos amigos da época, o conheci antes nos programas de TV que fazia que pelos filmes. 

Zé do Caixão apresentava e protagonizava programas de terror na televisão, que mais divertiam que assustavam. Lembro que a gente ria muito de tudo aquilo. Era um terror popular, culto ao trash, e que fez muito sucesso. 

Depois, claro, conheci os filmes. Em especial os primeiros, À meia-noite levarei sua alma (1965) e Esta noite encarnarei no seu cadáver (1966). 

Revi o primeiro anos atrás e acho que é sua obra-prima. O personagem é um coveiro anarquista, debochado e sacrílego. Profanador, e em busca da mulher perfeita para gerar seu herdeiro. Lembro de uma cena famosa: uma procissão de Sexta-feira da Paixão passando na rua e o Zé do Caixão saboreando, às gargalhadas, um belo pedaço de carne. Naquele tempo, era uma ousadia. 

O fato é que o cinema bruto de Mojica era admirado pelo pessoal da Boca do Lixo. Gente como Maurice Capovilla, Carlos Reichenbach, Rogério Sganzerla. E também por críticos-cineastas como Inácio Araújo e Jairo Ferreira. 

Jairo, aliás, é autor de um livro incontornável chamado Cinema de Invenção, no qual Mojica ocupa o alto do patamar dos “malditos”. 

Há uma questão histórica e cultural aí. O Cinema Novo agonizava e o assim chamado Cinema Marginal ocupava espaço. Ao parti-pris político de um, contrapunha uma estética do desespero, em que as noções de alta e baixa cultura, bom e mau gosto eram sistematicamente questionadas. Liga-se, nesse sentido, à então nascente Tropicália, como expressão da contracultura à brasileira. 

Nesse sentido, talentos cinematográficos mais intuitivos, como Ozualdo Candeias e o próprio Mojica, eram sugados para o “movimento” que incluía jovens intelectualizados como Sganzerla, Reichenbach e João Silvério Trevisan, entre outros. 

O fato é que, seja por seu talento bruto seja pelo acompanhamento crítico que o acompanhava, Mojica passou a ocupar um lugar de destaque na cultura brasileira. 

Embora cultuado, e autor de (calcula-se) uns 40 longas, passou muito tempo sem filmar. Voltou à tona em 2008 com Encarnação do Demônio, ajudado e co-produzido por jovens admiradores e cineastas de talento como Dennison Ramalho e Paul Sacramento. É o mais bem-produzido dos seus filmes e, segundo ele disse à época, completa a trilogia iniciada com os dois longas dos anos 1960, acima citados. Tanto cuidado o levou a vencer os prêmios principais do badalado 1º Festival de Cinema de Paulínia.  

Mojica teve inserção internacional com sua obra. No circuito trash, seu personagem ganhou nome em inglês – Coffin Joe, o Zé do Caixão para os gringos. 

Glória maior no exterior veio com a homenagem em 2008 no mais antigo festival de cinema do mundo, o de Veneza. Acompanhei de perto a homenagem a Mojica e a projeção de Encarnação do Demônio numa sessão especial. À meia-noite, claro. Para o horário, havia um bom público, que aplaudiu o filme em cena aberta. Em especial nas sequências de tortura, bem coreografadas. 

Pena que, depois dessa ressurreição, Mojica tenha ficado doente. Não levou adiante outros projetos que tinha. Durante algum tempo, manteve um programa de entrevistas no Canal Brasil. Ganhou uma série em sua homenagem, sendo interpretado por ninguém menos que Matheus Nachtergaele, o que é um luxo. 

É autor estudado. Além do livro de Jairo Ferreira, é objeto de análise em Cinema Marginal, de Fernão Ramos. Tem uma biografia Maldito: a vida e o cinema de José Mojica Marins, o Zé do Caixão, de André Barcinski e Ivan Finotti. Deve haver outras obras por aí que o estudem. Desconheço.  

Como se diz sempre quando morre um artista, agora é hora de reavaliação de sua obra. No caso de Mojica, talvez seja ainda mais necessário que em outros. 

Tudo o que sabemos sobre:

Jose Mojica MarinsZé do Caixão

Tendências: