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O humor de Freud

Luiz Zanin Oricchio

14 Novembro 2006 | 16h16

Alguns leitores me ajudaram a superar o trauma causado pela leitura literal de um comentário meu e lhes sou agradecido por isso. O comentário surgiu porque achei engraçado o espalhafato em torno do interinato de Aldo Rebelo na presidência. Pensei que já houvéssemos chegado a uma certa maturidade política e que esse fato seria encarado como mera rotina. O presidente viaja, o vice está em licença de saúde, assume o presidente da Câmara e ponto. Não interessa se é comunista, testemunha de Jeová ou membro da Opus Dei. Assim funcionam as democracias. Houve um tempo neste país em que se tinha medo das chamadas “ideologias exóticas” e se enxergavam comunistas em toda a parte. Era a adaptação cabocla à ideologia da guerra fria, com tudo o que isso teve de conseqüências, a começar pela doutrina da segurança nacional e terminando nos porões dos Doi-Codi.

Enfim, achei engraçado que alguém ainda se alvoroçasse com o fato de um comunista do PC do B assumir a presidência, mesmo que interinamente. Fiz uma pequena brincadeira e cometi uma pequena ironia. A maioria dos leitores entendeu mas outros caíram de pau através dessas ferramentas do mau humor contemporâneo que são o e-mail e os blogs. Por isso agradeço aos comentários inteligentes dos outros leitores.

E relembro a eles, coisa que certamente sabem, que bom humor e culto da ironia fina não são privilégios do Brasil e dos brasileiros. Certo, tivemos Machado de Assis, o nosso maior escritor. O que seria dele sem o uso refinado dessa figura de linguagem?

Mas lembro também de Freud, que sabia melhor do que ninguém a importância do humor. Tanto assim que escreveu uma obra fundamental como O Chiste e sua Relação com o Inconsciente.

Freud sabia que mais importante do que teorizar sobre o humor e a ironia é saber usá-los no dia-a-dia. São formas terapêuticas, que tornam nosso cotidiano mais ameno. E, em especial, são úteis nos momentos mais agudos. Cito um desses momentos da vida de Freud, talvez o meu favorito. Freud, velho e doente, vê-se obrigado a sair de Viena com a iminência da guerra. A mudança para Londres tem de ser negociada com os nazistas, que exigem uma declaração, assinada por Freud, de que fora bem tratado por eles. Freud redige uma carta na qual não apenas reconhece o bom trato a ele dispensado pelos SS nazistas como os elogia pelos boas maneiras e os recomenda vivamente aos amigos. Com a ironia, é claro, o documento assinado compulsoriamente por Freud tornou-se inutilizável pelos nazistas. Cairiam no ridículo se o exibissem publicamente. A ironia pode, também, obedecer a uma finalidade política.