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O horror e o silêncio

Luiz Zanin Oricchio

27 de fevereiro de 2007 | 19h48

Tinha decidido não me manifestar sobre esse caso do garoto João Hélio. Achava que, diante do horror, cabia o silêncio. Por uma questão de pudor. Mas o ser humano vive de palavras. Parece incapaz de se calar, mesmo depois do conselho de Wittigenstein (sobre o que não se pode falar é melhor calar). Agora aprendo que os pais de João Hélio vão (ou foram, sei lá) à novela Páginas da Vida, da Globo, prestar um depoimento. Esse relacionamento da dor com a mídia me parece digno de atenção.

Não fiquei indiferente a tudo o que se escreveu sobre o caso. E me causaram espanto sobretudo algumas opiniões de intelectuais, que, diante do crime, não apenas se diziam compreensivos com represálias, mas dispostos a incentivá-las. A imprensa não ficou atrás. Um jornal carioca estampou uma foto com os criminosos e o título “O que eles merecem?” Precisa mais? É um convite ao linchamento?

Em meio a esses apelos por justiça pelas próprias mãos, as ilhas de racionalidade foram poucas, e arredias. Como se fosse indecente manter a lucidez diante desse crime, e só opiniões truculentas e extremadas estivessem à altura dos fatos.

A meu ver, a questão principal seria: o Estado pode igualar-se em barbárie ao criminoso? Por essa pergunta passa toda a questão da pena de morte (formal ou informal) e, de maneira geral, a dos limites do instrumento punitivo do Estado. Dizer-se chocado com o crime não desculpa ninguém por seu destempero. A não ser os diretamente atingidos. Destes, não seria humano exigir serenidade. Mas são a única exceção. O resto, nós, legisladores, intelectuais e jornalistas, cidadãos comuns, todos enfim, deveríamos manter a cabeça no lugar. Mesmo quando o coração sangra.

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