O Homem que Não Dormia
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O Homem que Não Dormia

Luiz Zanin Oricchio

27 de abril de 2012 | 17h36

James Joyce dizia que Ulisses era seu romance diurno e Finnegans Wake seu romance noturno. Guardadas as imensas e devidas proporções, pode-se dizer coisa semelhante de Eu me Lembro e O Homem que não Dormia,de Edgard Navarro. O primeiro é o dia, o segundo, a noite; um é a vigília, outro o sono; um é a consciência, o outro o sonho – ou melhor, o pesadelo.

Talvez seja nessa medida e por esta razão que Eu me Lembro tenha sido amado e O Homem que Não Dormia desperte resistências, mesmo em quem se declara fã do realizador baiano, autor de um filme tão visceral quanto O Super-Outro, ícone da vanguarda baiana. Se em seu filme anterior Navarro havia posto a nu suas memórias, ternas e dolorosas, agora ele mergulha fundo, sem rede de segurança, em seus fantasmas. É empreendimento de alto risco – e o filme leva essa marca.

Daí que o vilarejo que serve de epicentro lembre Macondo ou Comala, as cidades míticas de García Márquez e de Rulfo. Cidades de sombras, mais que de seres reais, Na de Navarro comparecem um coronel, um padre sem vocação, um coronel, um estranho peregrino…enfim, uma série de tipos que expressam tanto a fantasmagoria pessoal do diretor quanto a tradição das lendas brasileiras. Impressiona a maneira como ideias ganham forma em imagens (a árvore que se desfolha de uma só vez é de antologia). Mas como Navarro provavelmente encarou O Homem que não Dormia como jorro do inconsciente não se deu ao trabalho de depurar mais a forma e dar-lhe estrutura.

Desse viés espontaneísta, o filme se ressente. É de uma coragem digna de nota; não deixa, porém, de expressar um caminho já percorrido, e talvez sem saída.

(Caderno 2)

 

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