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O Homem que Mudou o Jogo

Luiz Zanin Oricchio

21 Fevereiro 2012 | 11h12

Quem tem alguma familiaridade com o beisebol (não é bem o caso deste crítico) deve aproveitar melhor este O Homem que Mudou o Jogo,de Bennett Miller. De fato, o filme se passa inteiramente nos bastidores desse popular esporte nos Estados Unidos e outros países. Mas, quer saber de uma coisa? Mesmo quem não distingue um home run de uma mera rebatida, pode perfeitamente curtir esse filme. Mesmo porque, mudando o que precisa ser mudado, o popular mutatis mutandis, o que Miller diz para o beisebol vale muito para o futebol. E, quanto a este, estamos em casa.

O caso é o seguinte. Billy Beane (Brad Pitt) é o diretor executivo de uma equipe mediana do beisebol, que acaba de perder seus três maiores astros para times mais ricos. Como fazer? Beane é um ex-jogador de sucesso, não se conforma apenas em competir. Quer vencer. Ou pelo menos chegar perto do título. Não tem grana para contratar grandes estrelas para brilhar no campeonato.

Qual o remédio? Cérebro. Em companhia de um nerd, Peter Brand (Jonah Hill), economista formado em Yale e que não entende coisa alguma de esporte, mas muito de matemática e de computadores, Beane começa a testar um novo modelo de jogo.

O que pode ser esse novo modelo? Ele se resume a algo mais simples de dizer que de fazer. Dividindo a estrutura do jogo em seus elementos, usando atletas pouco badalados, mas que tenham ótimas médias em tarefas particulares, consegue somar pontos e vencer as partidas. Em linguagem de futebol, seria formar um “time de operários”que, entrosado, poderia enfrentar os times estelares, os galácticos.

O interesse do filme vem do fato de mostrar que os jogos, em particular os jogos coletivos, são, antes de tudo, atividades cerebrais. É verdade que dependem de vários fatores difíceis de controlar, como o acaso e o talento individual de alguns jogadores privilegiados. Mas também é influenciado pelo sentido de organização, por estratégias e táticas que podem ser pensadas e analisadas e, em seguida, colocadas em prática. Pelo que se diz, o filme é baseado em caso real, uma verdadeira revolução esportiva operada por este homem obstinado.

E eis aí o homem, Brad Pitt, que vem encarando papéis interessantes em sua carreira e disputa o Oscar de melhor ator com O Homem que Mudou o Jogo. Está também em outro filme que concorre à estatueta, o grandioso A Árvore da Vida,de Terrence Malick. Mas é mesmo como o manager de O Homem que Mudou o Jogo que Pitt pode levar o prêmio para casa. Hill, ótimo como o nerd que o auxilia na tarefa, concorre ao Oscar de coadjuvante. Tem mais chance do que Pitt, neste outro jogo que é o da Academia de Hollywood.

Bennett Miller é o mesmo diretor de Capote (2006), ótima cinebiografia de Truman Capote, o escritor interpretado por Philip Seymour Hoffman, que levou um Oscar pelo trabalho. Agora Hoffman faz um pequeno papel como o técnico da equipe, subordinado de Brad Pitt, e levado à loucura pelas inovações do chefe. Como sempre, mesmo com poucas aparições em cena, Hoffman dá densidade ao papel. É outro elemento forte do filme.

Com tudo isso, é claro que, na disputa do Oscar, O Homem que Mudou o Jogo é tão azarão quanto o Oakland Athletics, time dirigido por Brad Pitt. Mas o filme tem fluência. Inteligente e seco como uma boa rebatida, mantém o interesse do espectador o tempo todo. Além disso, quando se faz um filme sobre um jogo não é apenas dele que se fala e sim de toda uma mentalidade a ele associada.

Um esporte popular, se soubermos enxergá-lo além de sua evidência, diz muito sobre a sociedade em que é praticado e apreciado. Nesse sentido, O Homem que Mudou o Jogo pode ser visto não apenas como um filme sobre determinado esporte, mas como alegoria da crise americana e suas possíveis alternativas. O título original diz muito mais que sua tradução brasileira – Moneyball (o subtítulo do livro em que se baseia, escrito pelo jornalista Michael Levis, é ainda mais explícito: A Arte de Vencer um Jogo Injusto). Ao tentar fazer mais com menos, Beane, que é personagem real, parece indicar uma saída – talvez utópica – não apenas para o esporte, mas para certa crise de valores, e não apenas econômicos. Vale também para o futebol, e outros esportes.

(Caderno 2)