O homem que mudou a cara do Che
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O homem que mudou a cara do Che

Luiz Zanin Oricchio

18 de setembro de 2009 | 10h01

che

Luis Garcia Gutiérrez é cirurgião-dentista. Cubano. Tem agora 91 anos, é jovial, ativo e bem-humorado. Dirige o próprio carro pelas ruas de Havana. Gutiérrez foi um dentista muito requisitado no tempo de Fulgêncio Batista, quando Havana era uma espécie de bordel do Caribe e ele era chamado para melhorar o sorriso das moças do Tropicana. Seu trabalho mais requisitado era uma sobredentadura que dava sorriso de estrela de Hollywood às moças cubanas. Se o serviço não fosse bem-feito, deformava o rosto da pessoa, conhecimento que lhe foi de muita valia quando, no dia 25 de dezembro de 1965, Gutiérrez, ou Fisín, como é conhecido, colocou a prótese mais importante de sua vida. O cliente era alguém especial, e não tinha qualquer problema com seus dentes naturais. A prótese fazia parte de um disfarce, já que esse personagem precisava passar por determinadas fronteiras e não queria ser reconhecido. Era Ernesto Guevara, que havia deixado Cuba, tentara fazer a revolução no Congo, fracassara e se preparava para nova aventura.

Gutiérrez, o nosso Fisín, foi escolhido a dedo para o trabalho. Afinal, ele não era apenas um dentista de elite. Era também membro do Partido Comunista Cubano desde 1947 e fazia parte do serviço secreto, que falsificava documentos e disfarçava pessoas. Aliás, Fisín não gosta do termo “disfarçar”. “A palavra certa é “mascarar”, pois é isso o que fazemos”, diz. Como já tinha prática nesse trabalho e era de inteira confiança da revolução de Fidel, foi o escolhido para a missão de sua vida. Um membro do alto comando o procurou em Havana e disse que havia um trabalho especial para ele. Era preciso viajar. Fisín fez a mala e voou para a Europa e, em seguida, para Dar El Salaam, na Tanzânia, onde se encontrava o guerrilheiro, escondido num quarto dos fundos do prédio da embaixada de Cuba. “Eu era uma das dez pessoas em todo o mundo que conhecia o paradeiro de Che Guevara naquela época”, conta Fisín.

Levaram-no ao quarto e lá estava o Che. “Senti muito calor, pois estávamos na África e, além disso, eu estava nervoso. Pedi licença a Guevara para tirar o paletó e ele disse que podia ficar tão à vontade como ele, se eu quisesse.” Acontece que o Che estava de cuecas.

Nos dias seguintes, Fisín ocupou-se em transformar o Che. Fez um trabalho sofisticado. O mais simples foi convencer o guerrilheiro a se barbear diariamente, pois sua figura barbuda era o que havia de mais notório naquele tempo. Em seguida, aparou os cabelos longos e transformou-o num penteado decididamente careta. Arrumou-lhe um par de óculos de fundo de garrafa – lentes de grau com uma pequena parte transparente no centro, pela qual ele podia enxergar. A transformação não parou por aí. Fisín providenciou sapatos de salto alto para aumentar-lhe a estatura. Confeccionou um colete especial com uma pequena bossa atrás, que lhe dava o ar meio corcunda. Recomendou que usasse roupas de listas verticais, o que aumentaria a impressão de altura. Por fim, a obra-prima: a sobredentadura que não apenas mudava o aspecto dos dentes mas alterava por completo a fisionomia, pressionando a boca para fora, o nariz para o alto e criando uma proeminência que lhe dava um ar meio imbecil. “E tolo era alguma coisa que ele em definitivo não era”, ri Fisín.

Depois de terminado o trabalho, era hora de fazer a prova. Fizeram com que o Che saísse pelos fundos, desse a volta à casa da embaixada e se apresentasse à porta. Quem atendeu foi o oficial Padilha, guarda-costas de Guevara, que tentou impedir a entrada intempestiva daquele desconhecido que se expressava em linguagem ininteligível. Quando Che revelou o disfarce, caíram todos na gargalhada. A coisa funcionava. E a tal ponto que quando Aleida teve autorização para vir à África ver o marido se deparou com um completo desconhecido. Em seguida, o Che foi a Praga com a mulher, antes de regressar em segredo a Cuba.

Um sítio em Pinar Del Río foi o esconderijo de Guevara quando retornou clandestino a Cuba e começou a se preparar para a guerrilha na Bolívia. Fisín foi novamente chamado para providenciar o mascaramento do guerrilheiro. Afinal, ele era procurado pela CIA e precisava passar por várias fronteiras da América do Sul até chegar a La Paz e, de lá, internar-se na selva e reunir os companheiros de luta. Aos disfarces anteriores, Fisín acrescentou mais um: depilou, com cera, parte da cabeça do Che e transformou-o em homem calvo. Já que, pelo disfarce, o personagem precisava usar óculos de grau, Fisín decidiu obter um ganho secundário do apetrecho. “Lapidei uns pequenos espelhos na parte interna da armação, que funcionavam como retrovisores; assim o Che podia ver quem vinha por trás”, diz.

O tempo de convivência de Fisín e Guevara foi longo. O dentista diz que, no começo, o tratava com a reverência que se deve aos mitos. Mas depois viu que Guevara era um homem informal e bom companheiro. “Jogávamos xadrez, praticávamos tiro e nos exercitávamos juntos”, conta. Quando se despediram, Che fez apenas um pedido, que se mostrou profético. “Ele sabia da minha longa militância no Partido Comunista, mas me pediu para nada comentar com os soviéticos, por mais que eu tivesse confiança neles”, conta. Guevara explicou: “Se os soviéticos souberem da minha presença na Bolívia, o Partido Comunista Boliviano também saberá; e se o Partido souber, a CIA também saberá porque tenho a certeza de que o Partido está infiltrado.” Mais tarde, já na Bolívia, Guevara tentou, em vão, convencer Mário Monje, secretário do Partido Comunista Boliviano, a apoiar a guerrilha. Não conseguiu. Mas é certo que a CIA se inteirou de sua presença no país e forneceu apoio ao exército boliviano para caçá-lo.

Depois de fazer essa recomendação, Guevara despediu-se coma frase esperada – “Hasta la victoria, siempre”. E Fisín nunca mais o viu.

(Caderno 2, 18/9/09)

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Fernando Birri e Fisin (à direita)

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