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O Homem das Multidões

Luiz Zanin Oricchio

05 de agosto de 2014 | 23h50

Existe um longínquo parentesco entre O Homem das Multidões, de Cao Guimarães e Marcelo Gomes e o conto homônimo de Edgard Allan Poe em que se baseia.

No conto, temos o narrador que se encanta por uma estranha figura em meio a milhares de outras, e passa a segui-la pela noite londrina. No filme, há Juvenal (Paulo André), um maquinista de metrô que convive no emprego com Margô (Silvia Lourenço), controladora do fluxo dos trens. São dois solitários particulares, em meio à solidão coletiva da metrópole.


Entre parênteses: é meio inútil buscar relações de fidelidade entre a obra literária de partida e a sua adaptação cinematográfica. Não importa saber se o diretor foi “fiel” à trama ou se a deformou em seu proveito. Mais interessante é detectar se o filme captou o espírito do texto. Ou, ainda, se logrou entrar em sintonia com o que esse texto contém de mais relevante. Coisa difícil de conseguir. Ainda mais se soubermos que esta breve obra-prima de Poe é tida como um dos seus escritos mais enigmáticos. O desconhecido anônimo seria um “duplo” do narrador? Ou uma simples projeção de seus temores a se diluir na multidão? Seria o confronto do narrador com o mal que ele carrega em si, cuja existência recusa e portanto reprime?

Fechando parêntese, fica claro que Marcelo Gomes e Cao Guimarães de fato conseguem tirar de Poe o que de mais consiste ele tem a oferecer neste texto, e o reciclam em uma realidade bem distinta. Poe situa sua ação numa grande metrópole, Londres, em meados do século 19. A dupla de cineastas dá um salto temporal e outro geográfico e traz seu personagem para o Brasil do século 21, na mineira Belo Horizonte. Entre uma ponta desse arco e a outra figura a questão da solidão e de como ela se torna particularmente penosa em meio à multidão da cidade. Essa é a essência do relato, aquilo que mais ele tem a dizer e nos toca mais profundamente.

E, dessa leitura inteligente do relato, deriva toda a proposta estética do filme. Interpretações delicadas e muito discretas dos protagonistas. Cenas captadas de modo impessoal e em tom frio, muitas vezes vistas através das lentes de uma câmera de vigilância.

Juvenal mora só, num apartamento asséptico e despojado. Exercita-se na varanda, olha a cidade, fala consigo mesmo. Margô mora com o pai (Jean-Claude Bernardet) e mantém contato com o mundo através do computador. Mesmo seus peixinhos de estimação são digitais. Conheceu o noivo num chat de relacionamentos e pretende se casar. Precisa de um padrinho…mas não conhece ninguém para assumir esse papel.

Essa história melancólica é a soma de dois talentos – de um mais centrado em seus personagens, o de Marcelo Gomes, e outro, mais contemplativo e vinculado ao apuro das imagens, Cao Guimarães. A colaboração, para não dizer a síntese entre os dois, dá certo. O Homem das Multidões é um filme de poucas falas e de muitos silêncios eloquentes. Traz uma emoção que, de tão sutil, pode ser até interpretada como frieza. Nada disso. É apenas emoção que, ao ser contida para não transbordar, se expressa ainda melhor, porque sem chantagem ao espectador.

 

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